Griot : Revista de Filosofia

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Da proteção ao desamparo: uma leitura fenomenológica da responsividade, vulnerabilidade e estranheza na crise contemporânea das garantias - (2026)

Rudinei Cogo Moor

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. Este artigo analisa fenomenologicamente a crise contemporânea das garantias a partir dos conceitos de proteção, vulnerabilidade e desamparo. Com Husserl, sustenta-se que a proteção não deve ser compreendida primordialmente como dispositivo jurídico ou técnico, mas como estrutura pré-reflexiva da experiência, inscrita no mundo-da-vida enquanto solo de validade, confiança e orientação. A crise das garantias expressa, assim, o colapso desse horizonte que sustentava a normalidade cotidiana e a previsibilidade do mundo social. Em um segundo momento, recorre-se à fenomenologia de Waldenfels para analisar a corporeidade como lugar originário da vulnerabilidade e da exposição ao estranho. O corpo é compreendido como instância de pathos, fazendo da proteção uma resposta sempre tardia ao acontecimento. Por fim, examina-se a crise europeia da proteção, destacando a figura do refugiado como expressão do desamparo contemporâneo e propondo a figura do terceiro como mediação entre resposta e responsabilidade.
Do um‑em‑muitos aos fluxos contínuos - (2026)

Ralph Leal Heck

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. Este artigo propõe uma reinterpretação do clássico problema dos universais a partir da ontologia de processos formulada por Johanna Seibt. Inicialmente, examinamos instâncias de abordagens tradicionais realista e nominalista ao problema, seguido das dificuldades inerentes a ambas. Em seguida, analisamos a teoria dos tropos, particularmente na versão de Keith Campbell, como uma tentativa de mediação entre essas posições. Embora a teoria dos tropos procure contornar os impasses dos modelos ontológicos anteriores, ela possui obstáculos conceituais inviáveis, como a explicação da semelhança entre propriedades e a sua localização espaço-temporal. Diante disso, o artigo propõe uma virada ontológica: substituir a estrutura estática do ser por uma ontologia de processos contínuos, dinâmicos e relacionais. Na proposta de Seibt, as propriedades deixam de ser entidades estáticas (universais ou particulares) e passam a ser compreendidas como padrões recorrentes de mudança dentro de fluxos processuais. Essa perspectiva dissolve a dicotomia entre universal e particular, ao conceber a multiplicidade como expressão de regularidades processuais em diferentes contextos. Com isso, concluímos que a ontologia de processos oferece uma alternativa conceitual mais coerente e produtiva para repensar o problema dos universais, permitindo uma metafísica alinhada com a complexidade dinâmica do mundo natural e com os desenvolvimentos contemporâneos da ciência e da filosofia.
Intuição de não-existência: considerações sobre a problemática metafísica da cognitio intuitiva em Guilherme de Ockham - (2026)

Bruno Reiser

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. This article examines the intuitive cognition in William of Ockham, in comparison to other operations of the intellective soul, as abstraction and judgement, and to what he defines as “evidence”. A particular attention is paid to the borderline case of the “non-existence intuition” and the reason why Ockham brings it up, besides his answer to the question of God’s almightiness as his opponent W. Chatton challenges him. The non-existence intuition is here considered from the perspective of the contingent conditions of knowledge and of the necessity of an utmost foundation for it as a whole, in an epistemological frame opposed to the metaphysics of participation and the realism of universals, such as it is radically based on the individual. Despite the difficulties matching up non-existence intuition with the Ockhamist theory of knowledge, it fits in well with its metaphysical implications. Thus there is a coherence in Ockham’s solution of a divine action which causes an intuition of a non-existent being by a straightforward act of belief in the intellect, that is to say, an intervention in the will, which exposes the intellect to its own boundaries so as to its negation. The appeal to a divine action were so required for its conditions of absolute “outsiderness” to the relation between intellect and thing.
Jacques Derrida e a fenomenologia de Husserl - (2026)

Janilce Silva Praseres

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. Principal representante da desconstrução Jacques Derrida (1930-2004) realizou uma leitura crítica da fenomenologia de Edmund Husserl, destacando suas aporias internas e reconfigurando as bases de questões fundamentais relacionadas à linguagem, à temporalidade e à subjetividade. A partir da obra A voz e o fenômeno de 1967, busca-se compreender como Derrida desenvolve uma análise rigorosa das noções husserlianas de consciência, presença e significado, formulando uma crítica que é ao mesmo tempo uma releitura inovadora. Husserl buscava estabelecer uma ciência rigorosa da experiência, centrada na intuição das essências dos fenômenos tal como aparecem à consciência. Derrida confronta diretamente esses pressupostos husserlianos, propondo que a fenomenologia não consegue escapar da mediação da linguagem e do tempo, o que impede o acesso a uma “origem pura” ou “presença plena”. Procuramos, assim, destacar os pontos principais dessa crítica. A crítica derridiana em A Voz e o Fenômeno não é uma rejeição da fenomenologia, mas uma radicalização de suas questões centrais, demonstrando que a busca de Husserl pela presença plena é inviável porque o significado está sempre mediado pela linguagem, pelo tempo e pela diferença. Assim, Derrida inaugura um novo campo de pensamento que questiona as bases metafísicas do ocidente e redefine os modos como entendemos linguagem, temporalidade e subjetividade.
Mais-valor de código, mais-valor de fluxo e mais-valor maquínico: codificação e descodificação do excedente em Deleuze & Guattari - (2026)

Émerson Pirola

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. Este artigo examina a reelaboração de Deleuze & Guattari da categoria marxiana de mais-valor em O anti-Édipo, expandindo-a para além do capitalismo. Os autores distinguem quatro tipos: o mais-valor de código, próprio das sociedades pré-capitalistas (primitiva e despótica), onde uma instância extraeconômica (moral, religiosa, política) domina a codificação dos fluxos e a extração do excedente é discernível, como no tributo ou corveia; o humano, da contradição capital x trabalho; o maquínico, do capitalismo avançado com a tecnociência; e o mais-valor de fluxo, que é intrinsecamente capitalista e engloba o humano e o maquínico. Um quinto tipo, o mais-valor financeiro, é mencionado em seminários. O mais-valor de fluxo é propriamente capitalista, operando sob descodificação generalizada, onde a instância econômica é determinante e dominante. Caracteriza-se por relações diferenciais entre fluxos de potências distintas, como financiamento e meio de pagamento, capital e trabalho (mais-valor humano), e mercado e inovação tecnocientífica (mais-valor maquínico). O mais-valor financeiro atua na integração dos mais-valores humano e maquínico no mais-valor de fluxo. O mais-valor maquínico destaca a centralidade do conhecimento e da tecnociência, onde o trabalho humano se torna "maquínico" e adjacente aos processos produtivos. A natureza imensurável e o comando não localizável são traços essenciais do mais-valor de fluxo, que se manifesta como uma força econômica impessoal.
Nas pegadas da dissimulação: notas sobre a ideologia burguesa, totalitária e invisível a partir de Claude Lefort - (2026)

Martha Gabrielly Coletto Costa

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. O artigo tem como objetivo apresentar a reflexão de Claude Lefort sobre o discurso ideológico como algo congênito à instituição das sociedades modernas. Isto significa discernir a ideologia como uma representação própria do imaginário social onde o mito e a religião deixaram de exercer uma função explicativa preponderante sobre as origens e as finalidades da comunidade humana. Vinda à tona no final dos anos 1970, momento histórico em que se declarava o “fim das ideologias”, a reflexão lefortiana presta uma contribuição importante para a renovação do debate teórico sobre a lógica de funcionamento e as figuras da ideologia, dentre as quais se destacam a burguesa, a totalitária e a invisível.
O dasein é espírito no mundo: reflexões sobre a morte em Heidegger e Hegel - (2026)

Sinésio Ferraz Bueno

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. A recepção favorável da filosofia de Heidegger no pós-guerra decorre de sua afinidade com o processo de secularização da cultura ocidental, especialmente ao tematizar a morte como estrutura ontológica da existência, desvinculada das promessas de transcendência religiosa. Essa concepção ressoou entre intelectuais que, diante do declínio da autoridade religiosa, passaram a compreender a finitude humana sob a perspectiva do nada. Em contraste, Hegel interpreta a morte não como expressão de uma finitude ontológica, mas como momento necessário da dialética da vida do espírito, em que a finitude é superada na totalidade do Absoluto. Assim, enquanto Heidegger vincula a experiência da morte ao horizonte existencial do ser-no-mundo, Hegel a insere no movimento especulativo em que vida e morte se revelam como momentos complementares da autoconstituição da Ideia. O artigo propõe, nesse sentido, problematizar as pretensões ontológicas da filosofia heideggeriana e confrontá-las com a reflexão hegeliana sobre o dasein e a morte.
O debate em torno do conceito de natureza humana entre transumanistas e bioconservadores - (2026)

Leonardo Nunes Camargo

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. Este artigo explora o debate entre transumanistas e bioconservadores sobre a redefinição da natureza humana por meio das biotecnologias emergentes. Os transumanistas defendem que o aprimoramento humano é um dever moral necessário para que o ser humano seja capaz de superar suas limitações. Em contrapartida, os bioconservadores argumentam que essa manipulação biotecnológica ameaça valores intrínsecos da natureza humana, promovendo uma homogeneização e instrumentalização do humano que podem levar a consequências éticas e existenciais problemáticas. Ao analisar as suposições filosóficas que sustentam ambas as posições, este estudo ilumina as tensões entre progresso e cautela no discurso biotecnológico contemporâneo. A discussão apresenta ao longo deste trabalho, contribui para uma compreensão mais profunda de como os limites conceituais da natureza humana são desafiados e remodelados por intervenções tecnológicas voltadas ao aprimoramento. Além disso, este artigo analisa criticamente essas posições, investigando as implicações filosóficas e éticas de uma biotecnologia voltada para o aprimoramento humano e considerando a viabilidade de um caminho intermediário que respeite a diversidade humana e a integridade de seus valores fundamentais.
Realidade e ficção na ontologia de Evaldo Coutinho - (2026)

Thiago André Moura de Aquino

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. Neste artigo, discuto o problema da relação entre ficção e realidade na ontologia de Evaldo Coutinho. A análise é motivada por diversas passagens nas quais o autor ressalta que o real e o ficcional podem permanecer indistintos e que também são, de certo modo, nivelados na cosmovisão apresentada na pentalogia intitulada de A Ordem Fisionômica. À primeira vista, a proposta aparenta contrariar um pressuposto fundamental da vida cotidiana, da ciência e da filosofia, qual seja, de que a diferença entre realidade e ficção não pode jamais ser suspensa. O objetivo deste artigo é esclarecer que a indistinção e o nivelamento não implicam a rejeição da diferença entre o real e a ficção, porém uma reformulação da relação nos termos do idealismo estético. O artigo está dividido em três seções, nas quais o problema é examinado sob três aspectos: 1) Delimitação da filosofia no domínio da arte d, 2) Determinação da função da ficção na arte filosófica e, por último, 3) O Caráter de Sombra da existência.  
Similarities and divergences between the republicanism of Coluccio Salutati and Niccolò machiavelli. - (2026)

Marcone Costa Cerqueira

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. Italian Renaissance Humanism expressed a strong influence from classical texts, both Roman and Greek. However, the intricacies of this appropriation of classical thought did not occur in a uniform or systematic way; the Christian-medieval tradition, especially that of the Augustinian school, provided diverse perspectives for interpretation, but also doctrinal obstacles. It is necessary to define the terms that, based on these influences, became central to the original constructions of important political thinkers in order to understand the problem of the republic during this period. We will highlight the figures of Coluccio Salutati and Niccolò Machiavelli, both central thinkers in the process of building a republican tradition in modernity. We will demonstrate how Salutati expresses Augustinian and Ciceronian influences in his main works; as a counterpoint, we will present in Machiavelli's thought an explicit opposition to the theoretical influence of these same authors. To qualify our presentation with greater specificity, we will take as central points the constitution of laws and the formation of the people from the legislative aspect.
Teorias da justiça ideais e não ideais como componentes de utopias realistas - (2026)

Ricardo Corrêa de Araujo, Alceu Maurício Junior, Moara Ferreira Lacerda, Carolina Matedi Barreira

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. O artigo aborda a divisão das teorias da justiça em ideais e não ideais, os impasses gerados a partir disso e a hipótese de uma complementaridade necessária entre ambas, para formar teorias da justiça completas, simultaneamente utópicas e realistas. Inicialmente, essa questão será mapeada a partir dessa divisão, como elaborada por John Rawls, e de um levantamento das principais posições no debate posterior, que se consolidou como crença na contraposição insuperável entre duas formas opostas de teoria. Em seguida, serão propostas definições das estruturas e descrições das funções desses dois tipos de teoria. Teorias da justiça ideais serão tomadas, adotando-se a posição de Rawls, como teorias normativas dependentes de idealizações, mas que constituem o horizonte normativo e estabelecem o fim último das inúmeras teorias não ideais possivelmente compatíveis com as primeiras. Teorias da justiça não ideais serão interpretadas, para além de Rawls, como compostas por uma estrutura dúplice, com uma parte descritiva cientificamente informada e outra parte normativa, derivada da normatividade geral da teoria ideal correspondente, que determina parcialmente sua parte descritiva. Por fim, será sugerida uma tentativa de resolução da oposição entre ambas, com a hipótese de que teorias ideais de justiça devem ser complementadas por um número indeterminado de teorias não ideais de justiça compatíveis, que combaterão injustiças específicas identificáveis apenas descritivamente, mas justamente a partir dos valores e objetivos fundamentais especificados por uma teoria do primeiro tipo, formando assim teorias da justiça completas, as únicas que poderiam reivindicar o caráter utopicamente realista reivindicado por Rawls.
The cognitive subject in I. Kant’s philosophy: characteristics, limits, and legacy - (2026)

Nguyễn Vân Hạnh

Volume: 26 - Issue: 1

Resumo. The cognitive subject in I. Kant's philosophy occupies a central position in the development of modern epistemology, marking a decisive shift from object-centered to subject-centered theories of knowledge. This article investigates the key characteristics of Kant’s cognitive subject through a critical analysis of his major works, particularly Critique of Pure Reason, and situates it within the broader context of Enlightenment thought. The study applies dialectical and historical materialist methodology to reveal six defining features: (1) the cognitive subject is formed through Kant’s critical method, emphasizing self-reflection and the limits of reason; (2) it is proactive, dynamic, and creative, not a passive recipient of external stimuli; (3) it raises foundational questions about dialectical logic and the conditions of knowledge; (4) it is speculative and ahistorical, reflecting Enlightenment individualism; (5) it is characterized by epistemological limits, as Kant asserts the unknowability of the “thing-in-itself”; and (6) it unifies the cognitive, moral, and aesthetic dimensions of the human subject. The article also critically examines the legacy of Kant’s conception, highlighting both its enduring influence on epistemology and its limitations, particularly the abstraction from social and historical context.
Nós, “os cristãos culturais”: apontamentos acerca da genealogia da confissão na obra de Foucault - (2025)

Jader Cavalcanti de Albuquerque Neto

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. O artigo se desenvolve a partir de dois momentos da produção foucaultiana, os idos de 1975 (cujo eixo está na aula de 19 de fevereiro de 1975, do curso Os anormais) e extratos da década de 1980, para uma melhor compreensão acerca da problemática da confissão (aveu), seguindo os movimentos de Foucault, como é marca de sua letra, entre o passado e o presente nas veridições correlatas. O foco será, principalmente, a genealogia da confissão eclesiástica (confession) e suas mutações nos dois momentos, tensionando o impacto da leitura dos primeiros Pères, principalmente Agostinho, em sua história da sexualidade ocidental.
A natureza histórico-social da vontade geral de Jean-Jacques Rousseau - (2025)

Manoel Jarbas Vasconcelos Carvalho

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Nosso objetivo nesta discussão é mostrar porque, segundo Rousseau, a natureza da vontade geral é histórica e social. Em algumas passagens de sua obra, Rousseau nos mostra o quão a conscience e o sentiment são insuficientes numa sociedade regida pelas leis civis; ao mesmo tempo, em seu Contrato social (1762), existe uma profusão de exemplos históricos que reforçam as origens históricas da vontade geral; por fim, principalmente, no verbete Economia (1755) Rousseau reforça, contra o argumento inatista da vontade geral, que esta precisa ser ensinada para que uma sociedade respeite o “que todos concordaram anteriormente para aprovar as leis”.
A pintura como voz do silêncio: Merleau-Ponty crítico de Malraux - (2025)

Tiago Nunes Soares Schweiger

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. O artigo explora a crítica de Merleau-Ponty à concepção de história da arte e de criação artística defendidas por André Malraux, com foco especial no tema da pintura. O cerne dessa análise reside na oposição merleau-pontiana à noção de um "espírito” na arte em Malraux, responsável por sua unidade e seus desdobramentos. Em Merleau-Ponty, em seu texto sobre A linguagem indireta e as vozes do silêncio, a unidade da pintura parece emergir da intencionalidade expressiva brotando da intrincada relação do artista com o mundo e com a tradição pictórica em suas possibilidades abertas. Se em Malraux a voz do silêncio ecoando na pintura é aquela de um espírito guiando a criação do artista em um caminho além da contingência e com uma historicidade própria, em Merleau-Ponty essa voz é aquela das relações tácitas e enleadas que existem entre o artista e o mundo, das quais a criação artística é possibilidade e desvelamento.
A posse de conhecimento é condição fundamental para asserção apropriada? - (2025)

Daniel Ramos dos Santos

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Neste artigo, considero dois contraexemplos de Jennifer Lackey (2007) à norma do conhecimento da asserção (NCA) para defender que essa norma não é fundamental para o ato de asserir de modo epistemicamente apropriado. Os dois contraexemplos considerados envolvem o que Lackey chama de asserções altruístas e asserções enganadoras. As asserções altruístas são asserções epistemicamente adequadas, mas que são feitas sem crença ou com algum abalo na confiança da crença, sendo assim, são asserções apropriadas sem envolver o conhecimento da proposição asserida, o que indica que a NCA não é fundamental. As asserções enganadoras, por sua vez, são asserções feitas com o conhecimento da proposição asserida, mas que o responsável pela asserção sabe que sua asserção levará seu interlocutor a gerar crenças falsas, por isso esse tipo de asserção deveria ser proibido, no entanto, a NCA não pode proibi-las pois envolvem conhecimento. Isso também indicaria que a NCA não é fundamental para asserção apropriada. 
A racionalidade econômica do humanismo penal clássico - (2025)

Cicero Josinaldo SILVA OLIVEIRA

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Nos mais representativos projetos humanistas para a reforma da justiça penal desenvolvidos no século XVIII, encontramos o programa para uma nova política do crime duplamente marcado pelo referencial econômico: o pressuposto de que os homens se deixam governar pelo manejo político-legislativo de seus interesses e a tentativa de promoção exaustiva da eficiência e da utilidade dos recursos empregados na execução das penas. Meu intuito é destacar que, o limiar das reivindicações por mudanças e garantias humanitárias nos sistemas penais está inserido no quadro moderno de protagonismo crescente da esfera econômica. Argumento que aceitação da razão dirigida por saldos de vantagens, concebida à luz de alegadas disposições originais do agir, faz funcionar uma racionalidade de tipo econômico com pretensões de estabelecer limites humanos ao direito de punir, e implica um importante componente teórico no processo moderno de enquadramento econômico da conduta e na formação da autoconsciência.
A vida em processo: explorando a dualidade entre vida e morte nas reflexões de Paul Tillich - (2025)

André Magalhães Coelho

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Este artigo busca, através das reflexões de Paul Tillich, explorar os conceitos de "processo" e "vida". Tanto os seres vivos quanto os seres inanimados estão igualmente sujeitos a "processos", mas, no contexto da morte, a "vida" carrega consigo sua própria negação. O uso enfático do termo “vida” visa expressar a superação dessa negação - como evidenciado em expressões como “vida renascida” ou “vida eterna”. Pode não ser exagero afirmar que as palavras que designam a vida emergiram da vivência da morte. De qualquer forma, a dualidade entre vida e morte sempre influenciou o significado da palavra “vida”. Este conceito polar de vida implica o uso do termo para identificar um grupo particular de entidades existentes, ou seja, os "seres vivos". "Seres vivos" também são “seres que estão morrendo” e exibem características singulares sob a influência da dimensão orgânica. O objetivo deste texto é investigar como o conceito genérico de vida serve como base para a formação do conceito ontológico de vida. A observação de uma determinada potencialidade de seres, seja de uma espécie ou de indivíduos, concretiza-se no tempo e na essência do ser. Para essa análise, utilizaremos obras do filósofo e teólogo alemão, além de outros autores que enriqueceram o debate sobre o tema.
Alteridade do si em Paul Ricoeur - (2025)

Mário Correia

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Em Paul Ricoeur o Si é um sujeito reflexivo e prático, identificado pela linguagem e reconhecido em suas capacidades, sem negar suas falibilidades. A identidade desse sujeito é uma conquista que leva em conta seu campo relacional. Nesse sentido, o tema da alteridade em Paul Ricoeur não é um discurso a favor da alteridade, em sentido reivindicativo primário. Antes, é reivindicação de singularidade (do si) em meio à multiplicidade. Para nosso autor, a alteridade possui caráter polissêmico, podendo se dizer de diversos modos, tais como: corpo próprio  ou carne, o estranho ou diverso de si e consciência ou foro interno. Alteridade do si é o assunto desse nosso artigo, como desdobramento do tema da identidade do si. Nosso intuito é ampliar ainda mais o horizonte do tema da identidade do si, inclusive apontando para a continuidade da reflexão.
As “duas histórias” da verdade e o “método” para uma história política da verdade em A verdade e as formas jurídicas - (2025)

Andre Constantino Yazbek

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. O artigo examina a série de conferência intituladas A Verdade e as Formas Jurídicas, proferidas por Michel Foucault em 1973, no Brasil, como ponto de delimitação para a formulação de uma “história política da verdade”. Para tanto, trata-se de mobilizar o problema da verdade, do poder e das práticas da verdade judiciária em Foucault segundo o seguinte percurso: i) uma breve retomada das pesquisas foucaultianas imediatamente anteriores ao conjunto de conferências de A Verdade e as Formas Jurídicas, com destaque para a sua particular leitura de Édipo Rei de Sófocles e o uso estratégico da filosofia nietzschiana em oposição a verdade apofântica de tipo aristotélica; ii) a explicitação do tema de uma “história externa” da verdade na primeira das conferências de 1973 (uma história centrada nas práticas sociais e nas relações de poder que produzem regimes de veridicção e modalidade de subjetividade); iii) o papel da filosofia nietzschiana como modelo crítico para uma análise histórica da política da verdade, em contraponto à tradição moderna de uma metafísica e de uma epistemologia da verdade.
Da subjetivação opressora à emancipadora: uma possível relação entre o aceleracionismo de esquerda e o Guattari tardio - (2025)

Victoria Hautz

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. A partir de um panorama histórico-conceitual do aceleracionismo, especialmente em suas vertentes de esquerda, propõe-se uma leitura que o relaciona com o pensamento tardio de Félix Guattari, cujo enfoque recai sobre três dimensões interdependentes: a ecologia, a subjetividade e as relações sócio-produtivas. Argumenta-se que a tecnologia, longe de ser um instrumento neutro, constitui um vetor fundamental nos processos de subjetivação, podendo operar tanto como dispositivo de controle e alienação quanto como ferramenta de reapropriação existencial e autovalorização, conforme sugere Guattari. Ao recuperar a esquizoanálise e a noção de agenciamentos coletivos de enunciação, defende-se que é possível pensar a técnica como aliada a modos de subjetivação emancipatórios e não unicamente opressores.
Dialectical thought in Aristotle’s conception of the world: a materialist reinterpretation - (2025)

Nga Thi Khuat

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. This article explores the dialectical elements embedded in Aristotle’s philosophical conception of the world, with the aim of reevaluating his contributions through the lens of Marxist dialectical materialism. While Aristotle’s system contains idealist elements, particularly in his metaphysical notion of the Prime Mover, his treatment of core concepts such as motion, change, contradiction, and the relationship between form and matter reveals a proto-dialectical logic. The study focuses on Aristotle’s critique of Plato’s Theory of Forms, his theory of the four causes, and his conception of potentiality and actuality, demonstrating how these themes anticipate later developments in Hegelian and Marxist thought. By engaging both classical texts and contemporary Vietnamese scholarship, the paper argues that Aristotle’s thought remains a valuable foundation for understanding the dynamic and contradictory nature of reality. His contributions offer critical insights into the historical continuity of dialectical philosophy and its relevance to present-day theoretical discourse.
Does Ockham’s razor matter to the problem of universals? - (2025)

Valdetonio Pereira de Alencar

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. This paper investigates how Ockham’s Razor can be applied to compare and evaluate solutions to the Problem of Universals. Initially, I discuss three formulations of this principle. Two kinds of parsimony emerge from this debate: ontological and ideological parsimony. Concerning the Problem of Universals, there are three groups of solutions: Realism, Nominalism, and Trope Theory. Analyzing the most parsimonious theory of each, in terms of ontological and ideological parsimony, yields a negative evaluation of the Razor. Ontological and ideological parsimony are not useful for determining whether one solution to the Problem of Universals is superior to another.
Entre Mbembe e Vergès: demolir o museu como necessidade decolonial - (2025)

João Vítor Alcântara Jorge

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Este ensaio propõe uma crítica radical ao museu enquanto instituição simbólica da colonialidade moderna, evidenciando sua função histórica como vitrine do saque, da racialização e do apagamento de memórias e modos de vida. Longe de constituir um espaço neutro ou de preservação imparcial do passado, o museu universal é analisado como um dispositivo central na legitimação da dominação colonial, articulado às dinâmicas do capitalismo racial e ao pacto narcísico da branquitude. A partir das contribuições teóricas de Françoise Vergès e Achille Mbembe — em articulação com autores como Fanon, Césaire, Cida Bento e Nêgo Bispo —, o texto examina os mecanismos de expropriação simbólica e material que sustentam o poder museológico. Analisa-se, também, o modo como a apropriação e a exibição de expressões coletivas dos povos subalternizados operam o silenciamento de suas histórias e cosmologias. O artigo explora, ainda, as proposições do antimuseu e do pós-museu como horizontes ético-políticos de ruptura com essa lógica, propondo a desordem absoluta como condição para reimaginar a memória, a justiça e a própria estrutura do sensível. Restituir, nesse contexto, não significa apenas devolver objetos, mas reconstruir mundos e romper com as fundações coloniais que sustentam as formas hegemônicas de ver, narrar e organizar a vida.
Félix Guattari, esquizoanálise e cinema - (2025)

Vladimir Moreira Lima

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. O objetivo deste artigo consiste em apresentar as relações que Félix Guattari teceu com o cinema. Trata-se de investigar, assim, tanto o modo pelo qual a partir do cinema pensou os principais temas e ferramentas de seu pensamento, em especial a esquizoanálise, quanto, neste movimento, nos é oferecida uma concepção para pensar o próprio cinema. Para isso, nos concentraremos especificamente nas produções dos anos 50, 60 e 70. Partimos da hipótese de que a esquizoanálise, proposta nos anos 70, configura-se como uma retomada ou ressingularização de uma outra proposta analítica e política denominada análise institucional, elaborada, por sua vez, nos anos anteriores. Observaremos, então, também como o cinema age diretamente nesta passagem. Nos deteremos, portanto, na análise dos livros Psicanálise e transversalidade: ensaios de análise institucional, o primeiro tomo de Capitalismo e esquizofrenia O anti-Édipo e Kafka: por uma literatura menor, ambos escritos com Gilles Deleuze e, por fim, a primeira edição de La révolution moléculaire.