Griot : Revista de Filosofia

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A posse de conhecimento é condição fundamental para asserção apropriada? - (2025)

Daniel Ramos dos Santos

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Neste artigo, considero dois contraexemplos de Jennifer Lackey (2007) à norma do conhecimento da asserção (NCA) para defender que essa norma não é fundamental para o ato de asserir de modo epistemicamente apropriado. Os dois contraexemplos considerados envolvem o que Lackey chama de asserções altruístas e asserções enganadoras. As asserções altruístas são asserções epistemicamente adequadas, mas que são feitas sem crença ou com algum abalo na confiança da crença, sendo assim, são asserções apropriadas sem envolver o conhecimento da proposição asserida, o que indica que a NCA não é fundamental. As asserções enganadoras, por sua vez, são asserções feitas com o conhecimento da proposição asserida, mas que o responsável pela asserção sabe que sua asserção levará seu interlocutor a gerar crenças falsas, por isso esse tipo de asserção deveria ser proibido, no entanto, a NCA não pode proibi-las pois envolvem conhecimento. Isso também indicaria que a NCA não é fundamental para asserção apropriada. 
A racionalidade econômica do humanismo penal clássico - (2025)

Cicero Josinaldo SILVA OLIVEIRA

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Nos mais representativos projetos humanistas para a reforma da justiça penal desenvolvidos no século XVIII, encontramos o programa para uma nova política do crime duplamente marcado pelo referencial econômico: o pressuposto de que os homens se deixam governar pelo manejo político-legislativo de seus interesses e a tentativa de promoção exaustiva da eficiência e da utilidade dos recursos empregados na execução das penas. Meu intuito é destacar que, o limiar das reivindicações por mudanças e garantias humanitárias nos sistemas penais está inserido no quadro moderno de protagonismo crescente da esfera econômica. Argumento que aceitação da razão dirigida por saldos de vantagens, concebida à luz de alegadas disposições originais do agir, faz funcionar uma racionalidade de tipo econômico com pretensões de estabelecer limites humanos ao direito de punir, e implica um importante componente teórico no processo moderno de enquadramento econômico da conduta e na formação da autoconsciência.
A vida em processo: explorando a dualidade entre vida e morte nas reflexões de Paul Tillich - (2025)

André Magalhães Coelho

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Este artigo busca, através das reflexões de Paul Tillich, explorar os conceitos de "processo" e "vida". Tanto os seres vivos quanto os seres inanimados estão igualmente sujeitos a "processos", mas, no contexto da morte, a "vida" carrega consigo sua própria negação. O uso enfático do termo “vida” visa expressar a superação dessa negação - como evidenciado em expressões como “vida renascida” ou “vida eterna”. Pode não ser exagero afirmar que as palavras que designam a vida emergiram da vivência da morte. De qualquer forma, a dualidade entre vida e morte sempre influenciou o significado da palavra “vida”. Este conceito polar de vida implica o uso do termo para identificar um grupo particular de entidades existentes, ou seja, os "seres vivos". "Seres vivos" também são “seres que estão morrendo” e exibem características singulares sob a influência da dimensão orgânica. O objetivo deste texto é investigar como o conceito genérico de vida serve como base para a formação do conceito ontológico de vida. A observação de uma determinada potencialidade de seres, seja de uma espécie ou de indivíduos, concretiza-se no tempo e na essência do ser. Para essa análise, utilizaremos obras do filósofo e teólogo alemão, além de outros autores que enriqueceram o debate sobre o tema.
Alteridade do si em Paul Ricoeur - (2025)

Mário Correia

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Em Paul Ricoeur o Si é um sujeito reflexivo e prático, identificado pela linguagem e reconhecido em suas capacidades, sem negar suas falibilidades. A identidade desse sujeito é uma conquista que leva em conta seu campo relacional. Nesse sentido, o tema da alteridade em Paul Ricoeur não é um discurso a favor da alteridade, em sentido reivindicativo primário. Antes, é reivindicação de singularidade (do si) em meio à multiplicidade. Para nosso autor, a alteridade possui caráter polissêmico, podendo se dizer de diversos modos, tais como: corpo próprio  ou carne, o estranho ou diverso de si e consciência ou foro interno. Alteridade do si é o assunto desse nosso artigo, como desdobramento do tema da identidade do si. Nosso intuito é ampliar ainda mais o horizonte do tema da identidade do si, inclusive apontando para a continuidade da reflexão.
As “duas histórias” da verdade e o “método” para uma história política da verdade em A verdade e as formas jurídicas - (2025)

Andre Constantino Yazbek

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. O artigo examina a série de conferência intituladas A Verdade e as Formas Jurídicas, proferidas por Michel Foucault em 1973, no Brasil, como ponto de delimitação para a formulação de uma “história política da verdade”. Para tanto, trata-se de mobilizar o problema da verdade, do poder e das práticas da verdade judiciária em Foucault segundo o seguinte percurso: i) uma breve retomada das pesquisas foucaultianas imediatamente anteriores ao conjunto de conferências de A Verdade e as Formas Jurídicas, com destaque para a sua particular leitura de Édipo Rei de Sófocles e o uso estratégico da filosofia nietzschiana em oposição a verdade apofântica de tipo aristotélica; ii) a explicitação do tema de uma “história externa” da verdade na primeira das conferências de 1973 (uma história centrada nas práticas sociais e nas relações de poder que produzem regimes de veridicção e modalidade de subjetividade); iii) o papel da filosofia nietzschiana como modelo crítico para uma análise histórica da política da verdade, em contraponto à tradição moderna de uma metafísica e de uma epistemologia da verdade.
Da subjetivação opressora à emancipadora: uma possível relação entre o aceleracionismo de esquerda e o Guattari tardio - (2025)

Victoria Hautz

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. A partir de um panorama histórico-conceitual do aceleracionismo, especialmente em suas vertentes de esquerda, propõe-se uma leitura que o relaciona com o pensamento tardio de Félix Guattari, cujo enfoque recai sobre três dimensões interdependentes: a ecologia, a subjetividade e as relações sócio-produtivas. Argumenta-se que a tecnologia, longe de ser um instrumento neutro, constitui um vetor fundamental nos processos de subjetivação, podendo operar tanto como dispositivo de controle e alienação quanto como ferramenta de reapropriação existencial e autovalorização, conforme sugere Guattari. Ao recuperar a esquizoanálise e a noção de agenciamentos coletivos de enunciação, defende-se que é possível pensar a técnica como aliada a modos de subjetivação emancipatórios e não unicamente opressores.
Dialectical thought in Aristotle’s conception of the world: a materialist reinterpretation - (2025)

Nga Thi Khuat

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. This article explores the dialectical elements embedded in Aristotle’s philosophical conception of the world, with the aim of reevaluating his contributions through the lens of Marxist dialectical materialism. While Aristotle’s system contains idealist elements, particularly in his metaphysical notion of the Prime Mover, his treatment of core concepts such as motion, change, contradiction, and the relationship between form and matter reveals a proto-dialectical logic. The study focuses on Aristotle’s critique of Plato’s Theory of Forms, his theory of the four causes, and his conception of potentiality and actuality, demonstrating how these themes anticipate later developments in Hegelian and Marxist thought. By engaging both classical texts and contemporary Vietnamese scholarship, the paper argues that Aristotle’s thought remains a valuable foundation for understanding the dynamic and contradictory nature of reality. His contributions offer critical insights into the historical continuity of dialectical philosophy and its relevance to present-day theoretical discourse.
Does Ockham’s razor matter to the problem of universals? - (2025)

Valdetonio Pereira de Alencar

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. This paper investigates how Ockham’s Razor can be applied to compare and evaluate solutions to the Problem of Universals. Initially, I discuss three formulations of this principle. Two kinds of parsimony emerge from this debate: ontological and ideological parsimony. Concerning the Problem of Universals, there are three groups of solutions: Realism, Nominalism, and Trope Theory. Analyzing the most parsimonious theory of each, in terms of ontological and ideological parsimony, yields a negative evaluation of the Razor. Ontological and ideological parsimony are not useful for determining whether one solution to the Problem of Universals is superior to another.
Entre Mbembe e Vergès: demolir o museu como necessidade decolonial - (2025)

João Vítor Alcântara Jorge

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Este ensaio propõe uma crítica radical ao museu enquanto instituição simbólica da colonialidade moderna, evidenciando sua função histórica como vitrine do saque, da racialização e do apagamento de memórias e modos de vida. Longe de constituir um espaço neutro ou de preservação imparcial do passado, o museu universal é analisado como um dispositivo central na legitimação da dominação colonial, articulado às dinâmicas do capitalismo racial e ao pacto narcísico da branquitude. A partir das contribuições teóricas de Françoise Vergès e Achille Mbembe — em articulação com autores como Fanon, Césaire, Cida Bento e Nêgo Bispo —, o texto examina os mecanismos de expropriação simbólica e material que sustentam o poder museológico. Analisa-se, também, o modo como a apropriação e a exibição de expressões coletivas dos povos subalternizados operam o silenciamento de suas histórias e cosmologias. O artigo explora, ainda, as proposições do antimuseu e do pós-museu como horizontes ético-políticos de ruptura com essa lógica, propondo a desordem absoluta como condição para reimaginar a memória, a justiça e a própria estrutura do sensível. Restituir, nesse contexto, não significa apenas devolver objetos, mas reconstruir mundos e romper com as fundações coloniais que sustentam as formas hegemônicas de ver, narrar e organizar a vida.
Félix Guattari, esquizoanálise e cinema - (2025)

Vladimir Moreira Lima

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. O objetivo deste artigo consiste em apresentar as relações que Félix Guattari teceu com o cinema. Trata-se de investigar, assim, tanto o modo pelo qual a partir do cinema pensou os principais temas e ferramentas de seu pensamento, em especial a esquizoanálise, quanto, neste movimento, nos é oferecida uma concepção para pensar o próprio cinema. Para isso, nos concentraremos especificamente nas produções dos anos 50, 60 e 70. Partimos da hipótese de que a esquizoanálise, proposta nos anos 70, configura-se como uma retomada ou ressingularização de uma outra proposta analítica e política denominada análise institucional, elaborada, por sua vez, nos anos anteriores. Observaremos, então, também como o cinema age diretamente nesta passagem. Nos deteremos, portanto, na análise dos livros Psicanálise e transversalidade: ensaios de análise institucional, o primeiro tomo de Capitalismo e esquizofrenia O anti-Édipo e Kafka: por uma literatura menor, ambos escritos com Gilles Deleuze e, por fim, a primeira edição de La révolution moléculaire.
Filosofía de Paulo Freire como urgencia en tiempos de dolor y desprecio a la vida - (2025)

José Gregorio Lemus Maestre

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. En una investigación transmetódica con la hermenéutica comprensiva, ecosófica y diatópica se cumplió con el objetivo complejo de analizar la filosofía de Paulo Freire como urgencia en tiempos de dolor, desprecio a la vida y denigración de la sabiduría. Inspeccionamos en el legado de Paulo Freire como filosofo como: decolonialidad; política en Paulo Freire; educación liberadora en el sistema educativo y el estado; deshumanización y alfabetización como política de la liberación; la educación liberadora en contraposición y no concordancia con la educación bancaria; filosofía sabía, ecosófica y concordante con la diatopia en Paulo Freire; filosofía ética en Paulo Freire; filosofía de la compasión y el amor en Paulo Freire. Ubicamos la pesquisa en las líneas de investigación tituladas: Gestión social comunitaria: liderazgo, empoderamiento y proyectos socio comunitarios en la transformación social para el buen vivir. Integración Comunitaria, Pedagogía y Evaluación en la formación de profesionales. Gestión Escolar con compromiso político en la formación ciudadana. En la cartografía en el momento propositivo, evidenciamos: Filosofía como educación liberadora en Paulo Freire; Paulo Freire el sistema educativo y él; la deshumanización y alfabetización como política de la liberación; filosofía en la educación liberadora en contraposición y no concordancia con la educación bancaria; filosofía sabía, ecosófica y concordante con la diatopia en Paulo Freire; filosofía ética en Paulo Freire; filosofía de la compasión y el amor en Paulo Freire; filosofía de la praxis auténticamente conciliadora con los desprotegidos recordando su creación grandiosa y el emerger del que deben esforzarse en la superación.
Freud’s concept of the unconscious: a philosophical ontology of human existence - (2025)

Ha Van Thi Ta

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. This article explores the ontological dimension of Sigmund Freud’s psychoanalytic theory, focusing particularly on the concept of the unconscious and its foundational role in shaping human existence. While Freud did not claim to be a philosopher, his analysis of the human psyche led him to confront core philosophical questions regarding the nature of being. The study traces how Freud’s clinical method—originally developed to treat mental illness—evolved into a broader inquiry into the structure of the human personality through key concepts such as the Id, Ego, and Superego. By positioning the unconscious not merely as a psychological phenomenon but as a central element in the ontological structure of the human being, Freud inadvertently contributed to reconfiguring the philosophical understanding of the self. Drawing comparisons with classical and modern Western philosophical thought, the article demonstrates that Freud’s theory bridges psychology and philosophy, revealing human beings as complex, internally conflicted entities shaped by both instinctual drives and sociocultural norms. In doing so, Freud laid the groundwork for a philosophical anthropology in which the human subject is no longer understood solely through consciousness and reason, but as a dynamic intersection of unconscious forces and cultural formations.
Gadamer, Benjamin e os limites da não-linguagem: é possível uma compreensão originária de mundo?. - (2025)

Rafael Batista Dias

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Este artigo investiga as transformações da linguagem na modernidade a partir das ideias de Hans-Georg Gadamer (1900-2002) e Walter Benjamin (1892-1940), explorando como a hermenêutica e a alegoria respondem à ascensão da imagem como paradigma comunicativo. Enquanto Gadamer entende a linguagem como medium ontológico do compreender — um processo dialógico enraizado na historicidade —, Benjamin a vê como campo de tensão entre nomeação originária e ruína instrumentalizada, especialmente na era da reprodutibilidade técnica. O estudo confronta suas perspectivas sobre os limites da linguagem: se Gadamer enfatiza a fusão de horizontes na tradição, Benjamin busca resgatar, nas fissuras da história, vestígios de uma experiência mimética e aurática. O objetivo é analisar como ambos pensam a relação entre compreensão e inefabilidade, articulando conceitos como os sem-expressão (Kant/Benjamin) e jogo hermenêutico (Gadamer) para discutir antinomias fundamentais: linguagem e não-linguagem, universal e particular, continuidade e choque. Ao final, propõe-se que a tensão entre esses pensadores não é mera oposição, mas um diálogo produtivo sobre a crise da comunicação no mundo contemporâneo, no qual a imagem muitas vezes suplanta a palavra sem esgotar seu dizer.
Holismo semántico y metáforas: estructura, contexto y variación interpretativa - (2025)

Kênio Angelo Dantas Freitas Estrela

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Este artículo articula la teoría de las metáforas conceptuales de Lakoff y Johnson con el holismo semántico moderado de Henry Jackman, con el fin de ofrecer una comprensión más precisa del lenguaje figurado como fenómeno semántico situado. Se argumenta que, si bien la teoría de las metáforas conceptuales ofrece una estructura coherente para explicar su sistematicidad, tiende a subestimar la variabilidad interpretativa y el papel del contexto discursivo. En contraste, el holismo semántico moderado permite concebir el significado metafórico como una función muchos-a-uno, estabilizada localmente en redes de creencias parcialmente compartidas. A partir de una revisión teórica y del análisis de tres metáforas extraídas del español contemporáneo —vinculadas al running, la docencia y la vida afectiva—, se muestra que la interpretación figurada no obedece a reglas fijas ni a sustituciones literales, sino que emerge de prácticas comunicativas situadas. Este enfoque amplía el estudio del significado figurado desde una perspectiva interdisciplinaria, integrando herramientas filosóficas y lingüísticas con especial atención al contexto.
Machado de Assis e o fideísmo cético pascaliano: semelhanças e dessemelhanças - (2025)

Daniel Benevides Soares

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Buscando investigar a influência pascaliana sobre a obra de Machado de Assis, comparamos o fideísmo cético do filósofo francês com algumas obras do autor brasileiro. Para isso, dividimos a investigação em três momentos. O primeiro momento considera cinco dos contos de Machado de Assis, contos representativos das duas fases do escritor. O segundo momento toma dois dos seus principais romances, tanto aquele que é considerado o mais propriamente pascaliano entre eles, quanto aquele em que há forte influência de elementos céticos. Finalmente, no terceiro momento, propomos um balanço da investigação efetuada nos passos anteriores para apresentar a solução inovadora do autor brasileiro para o problema que envolve a união de uma antropologia pascaliana com a impossibilidade da salvação pela graça frente à perplexidade diante da miséria humana, que se mostra persistente até as obras de maturidade. A solução vista na obra de Machado de Assis envolve uma forma de salvacionismo particular e original.  
Mitos que plasmam mundos: Flusser filomítico - (2025)

Tomaz P. De Tassis

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. O artigo propõe uma abordagem à fase inicial dos escritos de Vilém Flusser com base em seu contexto formativo nos anos 60 do século XX e sua interpretação da mitologia, dando especial ênfase ao seu diálogo com o círculo do pensador paulista Vicente Ferreira da Silva. O texto visa discutir as influências ferreirianas na filosofia de Flusser, especialmente no que tange à relação entre literatura, mito e história e propõe que a influência de Ferreira da Silva é decisiva para a exegese das obras iniciais de Flusser em língua portuguesa, tencionando demonstrar como o autor tcheco-brasileiro reagiu a seu contato intelectual com Vicente e seu grupo em São Paulo. Pretende-se argumentar que a principal influência filosófica de Vicente sobre a obra flusseriana se dá na configuração do mito como elemento fundante das culturas e mesmo do discurso filosófico, sendo que Flusser – em uma ambígua oposição à teoria do mito neopagã de Ferreira da Silva – estabelece as bases míticas de algumas correntes da filosofia ocidental moderna e contemporânea no judeu-cristianismo, através de peculiares interpretações ‘‘filomíticas’’ da filosofia de Descartes, da fenomenologia existencial e da história da Idade Moderna.   
O corpo como campo de forças: elementos para uma filosofia política da diferença - (2025)

Átila Brandão Monteiro

Volume: 25 - Issue: 3

Resumo. Este artigo propõe uma abordagem filosófico-política do corpo a partir das contribuições de Nietzsche, Foucault e Deleuze & Guattari, com o intuito de investigar os processos de subjetivação, dominação e produção da diferença nas sociedades contemporâneas. Partindo da crítica à concepção tradicional da política centrada em instituições e decisões racionais, argumenta-se que o corpo e a dimensão desejante constituem instâncias fundamentais da vida política. Por meio de uma análise conceitual e genealógica, são explorados os modos pelos quais os corpos são organizados, normalizados e capturados por práticas discursivas, saberes e instituições, mas também como neles residem forças de resistência, criação e transformação. Ao destacar a dimensão micropolítica das relações sociais, o texto visa contribuir para uma compreensão da política que integre o inconsciente, os afetos e a diferença como operadores fundamentais na produção de modos de vida e de subjetividades.
A antropofagia como método decolonial - (2025)

Marcos Lentino Messerschmidt

Volume: 25 - Issue: 2

Resumo. Neste trabalho, apresentamos os fundamentos do pensamento antropofágico, para defendê-lo como um dispositivo metodológico fecundo, a serviço da construção de um método decolonial. No item 1, descrevemos a disposição primitivista (posteriormente anticolonial) das vanguardas europeias, fundamentalmente o surrealismo e a relação do modernismo brasileiro com essas vanguardas. No item 2, a partir da análise dos manifestos “Pau-Brasil” e “Antropófago”, além da fortuna crítica acerca dos textos teóricos de Oswald de Andrade, traçamos uma breve história do movimento antropófago e apresentamos como o pensamento daí derivado pode servir para a construção de um método decolonial. Finalmente, no item 3, propomos o uso dessa metodologia como dispositivo ecocrítico adequado à reflexão sobre a presente crise ambiental. Acreditamos que o método antropofágico-decolonial, quando aplicado à crítica ambiental, oferece uma abordagem poderosa para repensar a relação da humanidade com o meio ambiente. Ao combinar a absorção e transformação cultural da antropofagia com a crítica estrutural do pensamento decolonial, este método sugere alternativas para enfrentar a crise ecológica que vão além das soluções tecnológicas convencionais, promovendo uma reconciliação entre modernidade e tradição, e entre humanidade e natureza.
A emancipação humana como horizonte da crítica: Revisitando o debate a respeito da posição do humanismo na obra madura de Karl Marx - (2025)

Lutti Mira

Volume: 25 - Issue: 2

Resumo. Neste artigo, apresento uma análise dos principais textos do primeiro modelo de crítica da economia política que Karl Marx formulou entre 1857-59, a fim de apontar de que maneira o autor posicionou o humanismo no interior de sua obra de maturidade. Num primeiro momento, mostro como Marx entrelaçou dois pares conceituais: de um lado, o par história/pré-história tem por função distinguir o socialismo de todos os modos de produção que o precedem, de sorte que a passagem para o socialismo e para a história marcaria uma ruptura emancipatória com toda a pré-história, pois enfim a sociedade humana se realizaria efetivamente. No entanto, como o socialismo ainda não se efetivou historicamente, a investigação de Marx se concentra no par capitalismo/pré-capitalismo: Marx evidencia que o pré-capitalismo é um limite anterior ao capital, permitindo que Marx critique a concepção a-histórica do capital que os economistas políticos formularam. Para demonstrar essa diferença entre capitalismo e pré-capitalismo, Marx revisita a noção de alienação, definindo-a como fenômeno especificamente capitalista. Em seguida, analiso os Manuscritos de 1844 indicando as diferenças significativas entre o humanismo do período de juventude e aquele presente no modelo de 1857-59. O intuito é desenvolver uma posição intermediária dentro da literatura secundária: entre posições que defendem uma descontinuidade completa e uma continuidade sem grandes alterações, argumento, seguindo Ruy Fausto, que há continuidade – pois Marx ainda possui uma certa posição humanista – na descontinuidade – pois o humanismo na obra de maturidade torna-se horizonte da crítica, deixando de funcionar como seu fundamento.
A hermenêutica niilista de Vattimo: da fabulação do mundo à história como história da salvação - (2025)

Douglas Willian Ferreira

Volume: 25 - Issue: 2

Resumo. Nesse artigo buscamos problematizar a questão da verdade metafísica a partir do pensamento de Gianni Vattimo e sua proposta de uma hermenêutica niilista. Nesse sentido, abordamos a atualidade do problema e colocamos para reflexão a possibilidade de fabulação do mundo e uma concepção de história diversa daquela linear. Na tratativa da hermenêutica é conveniente destacar que a dicotomia sujeito e objeto deve ser superada afinal, antes de sujeito e objeto, há um mundo de sentido que, por sua vez, possibilita o encontro significativo entre eles. Nessa realidade, o passado não está fechado, pronto e acabado, mas podemos retornar a ele enquanto intérpretes. O eterno retorno desestrutura a pretensão de verdade do sujeito metafísico colocando-o sempre nessa condição de abertura, de interpretatividade diante daquilo que nunca se encontra superado. Assim, a hermenêutica é niilista, não somente ao corroer qualquer estabilidade da verdade interpretativa, mas mostrando que antes do sujeito há um horizonte histórico dado e que independe de suas “verdades”. O interprete que colabora nessa construção do conhecimento é o ser humano emancipado e que tem coragem de se colocar num mundo plural, sem medo, um mundo menos unitário, e por isso, menos tranquilo. Não há, contudo a defesa de um relativismo, afinal, o fato de reconhecer que a verdade é interpretação não quer dizer que tudo deva ser aceito. A interpretação tem de ser qualificada. Assim, a história enquanto história da salvação é criatividade e deve apontar para o simbólico, para aquilo que é sempre possível e que se dá como abertura de significado da letra e do texto.
A influência de Proclus durante a recepção dos Elementos de Euclides no século XVI - (2025)

Douglas Lisboa de Jesus

Volume: 25 - Issue: 2

Resumo. O artigo argumenta que a importância de Proclus se reflete na maneira como os Elementos passaram a ser interpretados e modificados, especialmente no que diz respeito ao tratamento dos primeiros princípios, como definições, postulados e noções comuns. A influência de Proclus também é evidente nas objeções ao estatuto indemonstrável do Postulado das Paralelas e na doutrina das definições genéticas, que serve ao propósito de reduzir os postulados de Euclides às suas definições. O artigo conclui apontando para outros desdobramentos filosóficos a partir dessa discussão sobre a geometria euclidiana, como o início das tentativas modernas de aplicação do método geométrico à metafísica.
A inviabilidade da arte no mundo neoliberal: o cinema e a crise da narração - (2025)

Lucas Eduardo da Silva Galon

Volume: 25 - Issue: 2

Resumo. Neste ensaio, discute-se o conceito de pós-modernidade a partir da hipótese de uma crise da narração, tal como interpretada pelo filósofo Byung-Chul Han (2023). Os problemas conceituais levantados são, então, aplicados ao campo das artes – pensado aqui a partir dos parâmetros da epistemologia da Poíesis Crítica, uma nova linha de pesquisa para as artes, também apresentada no ensaio –, com exemplos no campo da música contemporânea e das artes visuais, em especial no âmbito do cinema contemporâneo de autor. Três filmes são tomados como paradigmáticos para a compreensão dos problemas tratados e analisados, por fim, com o intuito de aplicar os conceitos discutidos no ensaio. São eles: Pobres Criaturas (Poor Things, 2023), de Yorgos Lanthimos; Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once, 2022), de Daniel Kwan e Daniel Scheinert; e Megalopolis (2024), de Francis Ford Coppola. Por meio dessa análise, busca-se ampliar a compreensão sobre os problemas da narração na modernidade tardia e seus efeitos no âmbito das produções artísticas.
A medida como liberdade e autonomia: uma leitura da doutrina do ser na Ciência da Lógica de Hegel - (2025)

Adilson Feiler

Volume: 25 - Issue: 2

Resumo. A medida, em sua dimensão de autossubsistência, se apresenta como unidade relacional. Por isso, aberta a engendrar novas relações, que são, nelas mesmas, relações de medida a constituir um todo relacional. Em sua independência de uma para com a outra unidade reacional, a medida opera, de forma livre, sem nenhum tipo de determinação, razão pela qual pode ser considerada real. E em sua dimensão de realidade, a medida apresenta um superar de momentos sequenciais de imediatidade externa, de relacionalidade diversa, confluindo no voltar-se sobre si de uma afinidade eletiva.
Animismo africano como estratégia de resistência decolonial no romance A Louca de Serrano, de Dina Salústio - (2025)

Francisca Patrícia Pompeu Brasil

Volume: 25 - Issue: 2

Resumo. No subcapítulo intitulado “Narrativa e Resistência”, de sua obra Literatura e Resistência, Alfredo Bosi (2002) esclarece que “resistência”, sendo um conceito ético, não deve, a priori, relacionar-se à estética, uma vez que esta se origina de potências de conhecimento, que seriam: a intuição, a imaginação, a percepção e a memória. Não obstante, esclarece o autor, diferente do que se pensa, resistência e estética interagem nas produções literárias de forma consistente e recorrente.  A resistência a determinados valores institucionalizados se conjuga à narrativa a partir de duas formas de realização: como tema e como forma inerente à escrita. Nesse sentido, propomos analisar o modo pelo qual o animismo africano se manifesta no romance A Louca de Serrano, da escritora cabo-verdiana Dina Salústio. Nosso interesse é destacar diferenças entre a perspectiva animista apresentada em textos literários  e o discurso cartesiano, no que tange às propostas de interação entre seres humanos e meio ambiente. Segundo a visão animista, posições dicotômicas/excludentes devem ser rechaçadas e substituídas por posturas mais harmoniosas e agregadoras. Desse modo, é possível inferir que ideias fundantes do inconsciente animista, relacionadas ao compartilhamento da força vital por todos os seres, humanos e não humanos, apontam para a urgente necessidade de se repensar os modos como nos relacionamos com a natureza; e também para importância de se considerar a proposta da Existência-em-Relação como uma opção válida de acesso a conhecimentos para formação ética ambiental. A obra selecionada para análise enquadra-se no linha do Realismo Animista africano, destarte, com o intuito de fazermos uma abordagem suficiente e adequada do tema, elegemos, como principais fontes de consulta, os seguintes textos: Literatura e Resistência, de Alfredo Bosi (2002); “Metamorfoses decoloniais: o inconsciente animista e transmutações como cosmovisão nas Literaturas Africanas”, de Silvio Ruiz Paradiso (2024); e “Reflexões provisórias sobre animismo, modernismo/colonialismo e a ordem africana do conhecimento”, de Harry Garuba (2018).
Confucianism across borders: a comparative analysis of its introduction and integration in South Korea and Vietnam - (2025)

Nhu Thi Nguyen

Volume: 25 - Issue: 2

Resumo. This study investigates the introduction and integration of Confucianism in South Korea and Vietnam through a comparative historical lens, aiming to understand how cultural and political contexts shaped divergent trajectories of Confucian influence. Utilizing a qualitative research design rooted in document analysis and interpretive comparison, the study analyzes historical texts, scholarly literature, and institutional records to trace Confucianism’s arrival, adaptation, and localization in both nations. Findings reveal that South Korea proactively embraced Confucianism during the Three Kingdoms period, integrating it into education, governance, and national identity through institutions like the Taehak and Hwarang-do. In contrast, Vietnam encountered Confucianism under Chinese colonial rule, where it was initially imposed as a tool of assimilation but gradually reappropriated by the Vietnamese elite for state-building and cultural resilience. The study underscores Confucianism’s flexibility and enduring influence, highlighting how it was reinterpreted to align with nationalist, socialist, and educational reforms in modern Vietnam. By contrasting Korea’s voluntary adoption with Vietnam’s complex negotiation of imposed ideology, this research provides deeper insights into the dynamics of cross-cultural philosophical transmission and the capacity of local contexts to reshape global ideologies.