Griot : Revista de Filosofia

(1059 Artigos indexados)

A experiência humana do mal e a revolta metafísica: uma análise a partir da obra de Albert Camus - (2025)

Alberto Oliveira

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. O presente artigo tem como objetivo apresentar uma análise sobre a experiência humana do mal a partir de duas perspectivas complementares. Primeiro, a experiência humana do mal na perspectiva da tradição grega clássica, com base no texto fundamental do aedo Hesíodo. E, a partir desse recorte, apresentaremos as inferências que o conceito de revolta metafísica apresenta como possível resposta à leitura da teodiceia cristã da condição humana marcada pela experiência do mal. Pois, um dos problemas fundamentais da leitura cristã sobre a experiência do mal está intimamente ligado à relação entre o ser humano, em sua condição de criatura, e o Criador, em sua condição de afastamento pelo pecado adâmico, o que impulsiona a revolta metafísica como uma experiência filosófica e artística de contestação dessa condição adâmica. Essa análise será abordada por meio das obras de Camus, tendo como base o ensaio filosófico O Homem Revoltado (1951). A partir de uma série de obras complementares, buscaremos apresentar a complexificação do conceito da revolta metafísica em direção à luta coletiva como resposta à experiência do mal. Pois esses temas fomentam uma parte fundamental do pensamento do autor argelino em seu esforço de construir uma aparente historiografia da revolta e da condição humana.
A tentativa de comprovação da existência divina na terceira via tomásica - (2025)

Clodoaldo da Luz

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. A discussão acerca da existência divina tem na gênese filosófica um pilar importante. Haja vista que, da reflexão clássica sobre a origem de tudo que há, a investigação filosófica medieval, sobretudo em Tomás de Aquino, baseou sua especulação sobre a existência divina. Pois, da busca do classicismo filosófico pelo elemento primordial, a investigação filosófica do Medievo converteu tal empreita clássica na discussão acerca da Causa incausada. Desse modo, o presente artigo visa refletir que a discussão acerca do problema da existência divina não se enquadra tão somente no âmbito teológico, senão, também, no filosófico. Por causa dessa ideia e pelo fato da filosofia do Aquinate ser fecunda para a investigação medieval acerca da existência divina, será, em primeiro lugar, refletido que a problemática acerca da existência divina constitui uma questão fecunda para a Filosofia. Depois, investigar-se-á, à luz do itinerário tomásico, qual poderia ser a base para se empenhar uma discussão sobre Deus. Por fim, será redigido um apontamento sobre a terceira via tomásica acerca da existência divina.
Apontamentos para uma política dos corpos na arqueologia foucaultiana - (2025)

Daniela Lima Barros

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Neste artigo, trata-se de reunir apontamentos para a formulação de uma política dos corpos na arqueologia foucaultiana. A visão sedimentada pela recepção hegemônica da obra de Foucault pretende que tanto o tratamento do corpo quanto a inflexão política em seu pensamento só adviriam na década de 1970. Em sentido contrário, buscamos extrair de dois momentos do percurso arqueológico de Foucault nos anos 1960 elementos de sua reflexão filosófica centrada na noção de corpo que dão ensejo e subsídios ao desenvolvimento de implicações políticas. Para tanto, recorremos à obra O nascimento da clínica, de 1963, e à conferência radiofônica O corpo utópico, de 1966, exemplos paradigmáticos da investigação arqueológica que têm no corpo seu eixo de articulação central. No primeiro, encontramos uma reconstrução do processo de constituição de corpos por meio do olhar médico, que culmina com a reflexão sobre as implicações sociais da construção desse saber – o que Foucault chama de “espacialização terciária” –; na segunda, a utopia emerge como força de auto-transcendência e vetor de transformação do corpo, a partir do corpo e rumo a outros corpos, o que evidencia o potencial político desse conceito.
Balancing Feudal Legacies and Socialist Aspirations: Vietnam’s Ethical Transformation - (2025)

Huong Thu Thi Nguyen

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. This study examines the enduring influence of Confucian ethics on Vietnam’s new morality, shaped by revolutionary and socialist ideals. Confucianism, with its emphasis on moral values, social harmony, and hierarchical relationships, provided the foundation for Vietnam’s traditional morality during the feudal era. However, its remnants, including patriarchal structures and rigid hierarchies, present challenges to modern democratic and socialist aspirations. Employing a qualitative research design, this study analyzes primary texts, including Confucian classics and Hồ Chí Minh’s writings, alongside secondary academic sources. Through thematic content analysis, the research explores the interplay between traditional Confucian values and modern ethical constructs, highlighting their dual role as both a moral cornerstone and a potential barrier to progress. The findings underscore that while Confucian ethics offer valuable guidance for governance, education, and societal cohesion, their feudal origins must be critically reevaluated to align with contemporary goals of equality and social justice. The study concludes by proposing strategies to retain the strengths of Confucian ethics while addressing their limitations, demonstrating how Vietnam can integrate its cultural heritage with revolutionary and modern principles to build a harmonious and progressive society.
Ciência e tecnologia no século XXI: um novo movimento de renovação epistemológica - (2025)

Elemar Kleber Favreto, Josie Agatha Parrilha da Silva, Marcos Cesar Danhoni Neves

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Science had its origin in the rationalization of reality, going through a continuous process of epistemological renewal over the past four centuries, culminating in the inseparable interconnection between Science and Technology in the new millennium. In the face of this scenario, the research in question aims to address the following problem: "How have the movements of epistemological renewal influenced the construction and validation of scientific knowledge throughout different eras, culminating in the interconnection between Science and Technology in the contemporary context of the 21st century?" With this purpose, the study aims to investigate the impact of epistemological renewal movements over time on the construction and validation of scientific knowledge, specifically analyzing the intrinsic relationship between Science and Technology in the 21st-century scenario. Configuring itself as basic research with a qualitative focus and bibliographic procedures, the results emphasize the relevance of the dialogue about Technoscience, a term that encompasses the profound interconnection between Science and Technology in contemporary times, aiming to redefine the human relationship with nature and address the challenges posed by the complex network of interactions in Technoscience.
Da crítica ao semiótico ao abjeto como paradigma de corpo-generificação: Judith Butler leitora de Kristeva - (2025)

Diego Luiz Warmling

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Seja em função do semiótico para criticar a psicanálise, seja para incorporar o abjeto entre suas problematizações, seja para evidenciar suas ambiguidades, é fato que Judith Butler (re)mobiliza amplamente as noções e críticas deixadas por Julia Kristeva. A começar na sua tese sobre Hegel, ela encontra nesta autora ferramentas úteis para problematizar os modos como certos sujeitos são execrados da mesma maneira que execramos os nossos excessos. Apoiados na sua leitura de Kristeva, veremos que Butler edifica crítica ao semiótico e sua teoria da abjeção, entendendo esta como paradigmática à problematização da performatividade dos corpos-gêneros. Haja vista que os atos de gênero não necessariamente obedecem às leis que os interpelam, é (re)mobilizando Kristeva desde uma perspectiva queer-feminista que Butler faz pensar na potencialidade de, nos termos do poder, não tratarmos como ilegítimas, invivíveis e patologizáveis a priori uma parcela significativa das formas de corpo-generificação. Através de uma leitura queer-feminista do semiótico e da abjeção kristevianos, este artigo procura analisar um dos passos pelos quais Judith Butler faz pensar quão “furadas” são as expectativas de coerência, fixidez e estabilidade identitárias.
Diatopía, decolonialidad y complejidad ¿qué significancias ocupan en la educación en la actualidad? - (2025)

Milagros Elena Rodríguez

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. En las líneas de investigación: Decolonialidad planetaria-complejidad en re-ligaje, Educación Decolonial Planetaria - transepistemologías complejas y transmetodologías complejas y los transmétodos decoloniales planetarios-complejos, como objetivo de la indagación se sustenta la tríada diatopía-decolonialidad-complejidad y su eficacia en la educación actualmente. En la reconstrucción la tríada diatopía - decolonialidad – complejidad y su urgencia en la educación aporta: la perentoria decolonialidad que representaría una implosión a las intencionalidades alienantes de la educación; es conyúgante de estas comprensiones y ejercicios en la praxis; la diatopía tiene como objetivo de comprender lo separado de la vida y minimizar el pensamiento abismal; diatopía conjunción maravillosa que va al abrazo de los topoi, la justicia como valor que promueve la paz como esencia pues no hay justicia sin paz; por ello urge  en la concordia sin superioridades, atendiendo las franjas de los desprotegidos de la vida. La tríada diatopías-decolonialidad-complejidad salvaguarda en la educación excelencias del ser humano, las provoca y pone en evidencia. Rescata la condición humana en la educación, es promotora de una educación que sea problematizadora de la salvaguarda de la vida, de la tierra como patria. Es promotora de una política del ser humano en su educación. Entre la política que salvaguardar la vida la tríada diatopías-decolonialidad-complejidad en la educación esta educar al ser humano en toda su complejidad. Por ello retomamos a Dios nuestro Arché que nos redime como humanos en la educación, fuera de las religiones atomizantes, se trata de una relacionalidad que nos regresa a nuestra complejidad.
Esboço para uma retomada do existencialismo: crer, desejar e brincar com e além de Sartre - (2025)

Vítor Hugo dos Reis Costa

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Trata-se de uma interpretação dos conceitos de crença, desejo, angústia e atitude de jogo tal como apresentadas por Sartre em O ser e o nada. Privilegiando o enquadramento oferecido por intérpretes de orientação heideggeriana como Gerd Bornheim e Joseph Fell, que veem em Sartre algo como um epílogo da tradição metafísica, pretendo apresentar os conceitos mencionados em uma perspectiva distinta daquela que seria a compreensão convencional do estatuto desses conceitos na já consagrada perspectiva da superação radical da má-fé. O artigo, portanto, consiste na apresentação interpretativa desse enquadramento metafísico da obra de Sartre e do estatuto desses conceitos na perspectiva de que a superação total da má-fé não é desejável – caso seja mesmo praticável. Tal apresentação interpretativa tem, por intento geral, oferecer as bases do que pode ser uma renovada atitude existencialista inspirada pelo pensamento de Sartre.
Fagologia e cismogênese - (2025)

Maurício Fernando Pitta

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Motivada por uma colocação de Eduardo Viveiros de Castro em seu prefácio ao livro Antropofagia – Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo, a noção de “fagologia” busca suprir, na economia conceitual de minha tese de doutorado, O Anti-Orfeu: por uma esferologia do ponto de vista do espectral, a carência de um conceito adequado para designar e escalonar diferentes esquemas de relação entre ontologias e para organizar alguns pares conceituais ramificados a partir da relação nuclear “eu–outro”, atravessados cada qual e entre si por uma dinâmica intrinsecamente perspectivista. Neste artigo, considerando a possível pertinência do conceito para pesquisas afins, pretendo: (1) apresentar os principais componentes do conceito, organizados em torno dos pares lógos–phágos (modos de relação com a alteridade) e topologia lógica–topologia fágica (planos topológicos); (2) desdobrar sua aplicação em dois tipos ideais simetricamente opostos (a “imunologia” e a “antropofagia”); e (3) articular, na forma dupla de um diagnóstico-prognóstico, a maneira como esses tipos ideais se relacionam, na intersecção entre o conceito de fagologia e o conceito de “cismogênese”, cunhado por Gregory Bateson e retrabalhado por autores como Viveiros de Castro, David Graeber, David Wengrow, Michael Houseman e Carlo Severi.
Hegel: o conceito de liberdade e história a partir das Linhas fundamentais da filosofia do direito - (2025)

Rosmane Gabriele V. Alves de Albuquerque

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Apesar da abundância de trabalhos e debates concernente ao conceito de liberdade, seja ela individual, coletiva ou metafísica, nota-se que as questões circundantes ao tema são inesgotáveis e passivas de reflexões. Principalmente no que diz respeito à Hegel, já que, sua filosofia não aborda o conceito de liberdade e seus seguimentos como partes isoladas, como se houvessem vários tipos de liberdade.  Pelo contrário, a liberdade em Hegel aparece como essência do espírito subjetivo que se expressa no mundo na forma do espírito objetivo, ou seja, na história. Essa, por sua vez, aparece como ação do próprio espírito através dos indivíduos. Esses, são guiados pela razão progressivamente ao autoconhecimento de que a liberdade é condição intrínseca a todos os homens. Assim, o presente artigo tem por objetivo esclarecer o conceito de liberdade em Hegel a partir da Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito (2022) e sua relação com o conceito de história.   
Hiperreligião e o desaparecimento do religioso com caráter, marcas de uma sociedade contemporânea - (2025)

André Magalhães Coelho

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Esse artigo procura analisar a hiperculturalidade pensada pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han. A hipercultura não gera massas unitárias de cultura, uma unidade monocromática. Ela desencadeia uma individualização cada vez maior, seguindo as próprias inclinações, reconfigura-se a identidade religiosa a partir de formas e práticas de vida. A hiperreligião estabelece diversas crenças a partir da qual se reconstrói uma religião própria. Etimologicamente, o caráter é o signo marcado a fogo, uma queimadura indelével. Seu traço principal é a inalterabilidade. A duração e a constância não favorecem o consumo e se excluem. O propósito deste texto é mostrar que a cultura de consumo de crenças está gradualmente eliminando qualquer sinal constante, e o declínio do aspecto religioso vai impondo um consumidor sem caráter.
Integrating Innovation with Integrity: Navigating the Humanistic and Ethical Dimensions of the Fourth Industrial Revolution - (2025)

Nga Thi Khuat

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. The Fourth Industrial Revolution (4IR) marks a transformative period in which the convergence of biological, digital, and physical technologies redefines human existence and societal structures. This paper critically examines the philosophical, ethical, and socio-political implications of these advancements, advocating for an integrative approach that aligns rapid technological innovation with enduring humanistic values. By addressing the potential for both human advancement and the exacerbation of social inequalities, the study emphasizes the importance of ethical reflection, robust regulatory frameworks, and educational reforms. It further explores the profound changes in work, identity, and community dynamics, calling for proactive policies to ensure equitable access to the benefits of 4IR while preserving human diversity. Ultimately, this analysis calls for a responsible and ethical engagement with emerging technologies to foster a future that promotes justice, human dignity, and planetary sustainability.
O teatro Político e a democracia ateniense - (2025)

Jean Farias

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. O objetivo deste artigo é analisar a relação da tragédia com a política, com a democracia e com o contexto social da Atenas no século V. A ideia do texto é debater como a tragédia reverberava questões importantes da sociedade ateniense. Na primeira parte do texto apresentamos um resumo bastante sucinto do contexto original das tragédias, a saber, os rituais em hora ao deus Dionísio, celebrando a fertilidade e a colheita. Na segunda parte o texto apresenta uma abordagem mais ampla da relação entre a tragédia e a política ateniense, tentando contrastar os ritos religiosos do primeiro momento com o teatro trágico que era praticado na cidade. Neste contexto a questão da pólis torna-se um elemento fundamental para tragédias. Na terceira parte do texto focamos em Eurípides como guia da nossa abordagem. Por meio da tragédia euripidiana tentamos enfatizar como os temas políticos estavam presentes no teatro grego.
Os caminhos de Schopenhauer em direção às origens sensualistas - (2025)

André Mário Gonçalves Oliveira

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Este artigo tem como objetivo demonstrar as raízes filosóficas de Arthur Schopenhauer no movimento sensualista. Para tanto, proponho afastá-lo das alegações de uma influência irrestrita do Romantismo, sem, contudo, descartar o influxo desse movimento, que reflete o espírito de sua época. O foco é aproximar o filósofo alemão de um dos movimentos que, embora menor, impulsionou o período romântico: o Sensualismo. Esse movimento, que atribui todas as funções da alma e, por conseguinte, todo o conhecimento às sensações, como exposto no Tratado das Sensações, de Étienne Bonnot de Condillac — frequentemente apontado como precursor do sensualismo — exerceu grande influência sobre filósofos franceses, entre os quais se destacam alguns de seus alunos e discípulos, que mais tarde buscaram expandir e aprimorar essa doutrina. A hipótese de uma influência sensualista em Schopenhauer será sustentada por meio de duas teses: 1) a transição entre intelecto e vontade, apresentada em sua obra magna, O Mundo como Vontade e Representação, que será relacionada à fisiologia francesa; e 2) seu breve tratado sobre educação, exposto em Parerga e Paralipomena, que será associado à pedagogia de Johann Pestalozzi.
Os conceitos fundamentais da filosofia da cultura de Tobias Barreto - (2025)

Leonardo de Sousa Oliveira Tavares

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. O artigo a seguir é dedicado à filosofia da cultura desenvolvida por Tobias Barreto e às implicações que esta é capaz de oferecer ao exercício filosófico. O autor das Glosas Heterodoxas a um dos Motes do Dia, ou Variações Antissociológicas (1884/1887) apresenta-nos um modo de conceber a cultura que tem algo a contribuir para a caracterização filosófica deste conceito. Em sua fase neokantiana, a tematização da cultura é marcada por uma reflexão que transpõe os limites da teoria do direito para avançar na direção da epistemologia e da antropologia filosófica, no ato inaugural de uma filosofia da cultura que influenciará diretamente o culturalismo brasileiro. Ao definir a cultura como o resultado das criações livres da humanidade em sociedade, a filosofia barretiana abre-nos um horizonte de consideração da cultura como o solo incontornável das realizações humanas. A partir desta concepção, se nenhum valor capaz de guiar a humanidade surge incriado na história das civilizações, é pelo fato de que há um processo de cultivo interminável, no qual a humanidade é livremente efetivada. Na origem deste mesmo processo, há um esforço para fazer triunfar os valores atuais, numa constante negação da natureza. Conforme analisamos, diante das articulações barretianas dos conceitos de cultura, natureza, sociedade e liberdade, somos convidados ao exercício de pensar em que medida a própria filosofia é responsável por nos acordar do sono cultural, a partir do qual esquecemos que a vida teórica e as suas leis brotam do domínio cultural dos valores.
Sobre a justiça da lei: estudo sobre lei eterna e humana à luz de Agostinho de Hipona - (2025)

Ricardo Evangelista Brandão

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. No presente artigo se investigou a relação entre lei natural e lei positiva (eterna e humana conforme o autor), segundo o prisma de Agostinho e Cícero. A escolha de dois autores com distância temporal de quatro séculos, e, consequentemente, com certa disparidade entre os contextos políticos, justifica-se por Cícero se constituir importante fonte teórica para Agostinho na matéria. Assim, no presente texto, por meio do estudo de diversos textos de Agostinho e Cícero, se pesquisou os conceitos de ambos sobre os apontados aspectos da lei, e a partir dessa pesquisa se estabeleceu uma análise dialogal entre os dois para entender o teor da influência de Cícero em Agostinho no assunto. Ambos os filósofos – com algumas variações - defenderam que a lei natural é universal, contém uma exortação para se manter a ordem natural por meio de ordenamentos imperativos e proibitivos, que se faz presente no homem por uma inclinação na razão (reta razão). Logo, os homens são capazes, por meio desse bom senso racional, de construir regramentos jurídicos que considerem os contextos de cada povo, regramentos esses guiados pelos princípios orientadores da lei natural.
Substância, atributo e modo na filosofia de Descartes: um passeio pelas suas definições, problemas e ambiguidades - (2025)

Giorgio Gonçalves Ferreira

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Neste artigo serão analisadas as noções de substância, atributo e modo na metafísica cartesiana e os problemas que giram em torno dessas noções, seja em suas definições seja nas relações que estabelecem entre si. Serão analisadas, inicialmente, as diversas definições que a noção de substância possui e os problemas oriundos dessas definições. Em seguida, o mesmo tratamento será dispensado às noções de atributo e modo. Feito isso, a análise focará nas relações estabelecidas por estas noções. Por fim, pretende-se evidenciar a confusão entre três níveis distintos do ser — formal, ontológico e numérico — existente no sistema cartesiano e que as tentativas de solucionar problemas que o próprio autor não conseguiu terminam por inserir no pensamento do autor consequências que ele jamais aceitou, ou por ocultar afirmações explicitamente formuladas.
Uma análise filosófica da natureza humana em Os Irmãos Karamázov - (2025)

Pedro João da Silva Bisneto

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Fiódor Dostoiévski, proeminente romancista da literatura russa, sempre foi muito marcado pela complexidade dos termos e das formas com as quais seus enredos se desenvolviam, indicando, em boa parte deles, uma necessidade de escavação e de estruturação de uma análise das individualidades e da natureza de cada um dos seus personagens, tanto que durante muito tempo, alguns críticos o liam como um autor de filosofia, o que, todavia, não acontece. Reconhecendo as naturais diferentes que sua obra tem do texto, pretendemos, aqui, estreitar uma relação clara e direta do texto literário com o texto filosófico – indicando essa crítica à forma e o modelo filosófico -, rompendo os limites de subordinação e/ou inferioridade entre as áreas, o que possibilita uma amplo diálogo entre obras e conceitos distintos. Para isso, tomarei como ponto de partida a obra Os Irmãos Karamázov para tentar identificar um recorte paradoxalmente objetivo de uma abordagem da narrativa cristã do pecado, perpassando por conceitos como a queda, o pecado original e o pecado hereditário. A costura dessas observações se dará mediante o esforço de uma leitura que enquadra o debate sobre a natureza humana na formação e representação dos Karamazov enquanto representante do gênero humano, perpassando seus conflitos e embates oriundos da não aceitação dessa natureza, além, obviamente, da complexa relação que cada uma dos Karamazov, semelhante ao homem, desenvolve com sua situação qualitativa.
Vidante: apresentação de um filosofar de candomblé - (2025)

Adeir Ferreira Alves

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Criado no doutoramento para apresentar o já existente filosofar de candomblé, “vidante” significa “vida diante do modo de vida do candomblé”, que busca romper com paradigmas epistêmicos do cânone da filosofia tradicional – especialmente no que diz respeito à ontologia, à história e à poética – e romper com paradigmas culturais centralistas presentes na cosmopercepção africana (bantocracia e nagocracia). Vidante (representação de pessoas negras, conceito, testemunha) rompe também com a “zona de não-ser” (espécie de política de morte) falada por Frantz Fanon, porque o seu principal objetivo é deslocar as pessoas negras da outridade para um “repatriamento identitário” encantado capaz de produzir cura – ao conduzir as pessoas negras às suas ancestralidades. Vidante entroniza o orixá Logunedé para apresentar o encantamento como filosofar específico no veio onto-epistêmico da cosmopercepção africana que parte do candomblé. O destaque em Logunedé não centraliza o filosofar na tradição iorubana, mas pensa a partir dos diferentes caminhos que esse orixá conflui, e o vidante entroniza Logunedé para vivenciar, expressar, pensar de modo espiralado e encantado – também aos modos de Exú e do Saci Pererê – por esse caminho que segue rumo ao candomblé para falar sobre o repatriamento identitário, ao qual muitas pessoas negras se sentem atraídas para recompor o seu ser – até então fragmentado, expatriado –, ao invés de simplesmente se instalarem em uma arrogada política de vida, mais focada no aspecto político que na vida. Esse texto dá à inteligência negra e à filosofia um signo, sentidos e significados existenciais novos a partir da questão racial negra.
A compartimentalização da vida em papéis sociais: estudo a partir de Alasdair MacIntyre - (2024)

Leandro Bertoncello

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. Este estudo investiga a fragmentação do self em papéis sociais e suas implicações para a responsabilidade moral, com base na filosofia de Alasdair MacIntyre. A análise se concentra na cultura contemporânea caracterizada pelo emotivismo, que dificulta o reconhecimento de um bem humano universal e o desenvolvimento da agência moral. MacIntyre critica o individualismo liberal da modernidade, sugerindo que a compartimentalização dos papéis sociais resulta em uma desordem moral, impedindo a formação de um self unificado. Ele argumenta que, ao agir conforme normas específicas de cada papel social, os indivíduos desconsideram um bem maior, exemplificado pela falta de integridade e constância, virtudes essenciais para a posse de outras virtudes. A pesquisa destaca a importância de ambientes que permitam a reflexão crítica e o desenvolvimento da agência moral. Na ausência desses ambientes, um agente moral pode falhar em reconhecer e transcender os padrões vigentes, levando a uma responsabilidade moral compartilhada pela estrutura sociocultural. MacIntyre propõe que os agentes morais devem ser responsáveis não apenas pelos seus papéis sociais, mas também como indivíduos racionais, promovendo um diálogo intersubjetivo e a busca por um bem maior para a vida humana.
A ideia de behaviorismo epistemológico em Rorty: um holismo sem suportes metafísicos - (2024)

Bruno Araujo Alencar, Heraldo Aparecido Silva

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente ensaio analisa o entendimento de behaviorismo epistemológico como um holismo sem pressupostos metafísicos, a partir de Richard Rorty (1931-2007). Para tanto, partiremos da ideia do “Mito do Dado” de Wilfrid Sellars, como um impulso filosófico ao qual Rorty se apropria para desenvolver a sua noção de que o behaviorismo epistemológico seria, na melhor das hipóteses, um holismo para criar contextos de justificação.  Inicialmente, proporemos uma discussão sobre a questão do nominalismo psicológico, apresentado no texto de Margutti, Ceticismo, pragmatismo e a crítica de Sellars ao “Mito do Dado”, observando como tal pressuposto constitui uma crítica rortyana para se chegar à ênfase da proposta. Em seguida, iremos ressaltar o entendimento que o filósofo neopragmatista tem do que é para ele, a noção de behaviorismo epistemológico, sem conotações metafísicas, uma em que parte da visão de dados sensíveis e epistêmicos para explicar nossa ação com o mundo, até uma que enfatiza a ideia de que seria melhor percebido como um holismo, isto é, um jogo de linguagem que diz qual o melhor jogo pode ser jogado, através de uma prática de justificação social. Nosso trabalho conta com o aporte teórico de Rorty (1979), Margutti (2000), entre outros. Nosso estudo indica que para se desvincular de explicações metafísicas e (re) descrever o behaviorismo epistemológico, Rorty aponta uma saída por meio de aparatos linguísticos que proporcionam uma ambientação em práticas sociais que permitem ir além de impressões sensíveis ou dados cognitivos, esclarecendo como a proposta pode ser difusa se estiver alinhada com a justificação ao invés da explicação.
A materialização da consciência e a defesa da fenomenologia transcendental em Husserl - (2024)

Guilherme Felipe Carvalho, Federico Ferraguto

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente artigo pretende discutir a defesa que Husserl faz da fenomenologia transcendental diante da atitude de materialização e da naturalização da consciência, que domina na atitude que está na base da formação das ciências naturais. Herdando certos elementos da Filosofia Clássica Alemã, Husserl compreende que é somente por meio do a priori que a filosofia pode ser efetivada como ciência rigorosa. A análise se desenvolverá, inicialmente, por meio da discussão crítica do problema que Husserl indica haver nas ciências baseadas na atitude natural, ou seja, a materialização da consciência. Em seguida, mostraremos como diante do projeto de construção de uma filosofia como ciência rigorosa, o naturalismo, ingênuo em sua fundamentação, é o principal obstáculo a ser superado por conta  das consequências que dele podem surgir, implicando em correntes como o psicologismo, materialismo e positivismo. Por fim, apontaremos a maneira como Husserl faz uma defesa da fenomenologia transcendental contra a ingenuidade da ciência natural que permanece presa nos fatos empíricos e faz destes o critério último de atestação da verdade.
A psicanálise na vertente diurna de Bachelard: psicanálise do conhecimento objetivo - (2024)

Pedro Olivieri Fonseca

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente trabalho pretende estabelecer uma interpretação argumentativa da teoria epistemológica na filosofia bachelardiana, a fim de demonstrar o espaço em que se inserem suas reflexões sobre a psicanálise na ordem do desenvolvimento do conhecimento científico. Esta abordagem epistemológica pode ser encontrada em seu conjunto de obras que compõem o que é denominado como a vertente diurna do autor, dentro deste campo de estudos destacamos a obra do ano de 1938, intitulada de: A Formação do Espírito Científico. A partir deste contexto, nossos esforços se concentram, sobretudo, na relação que se estabelece entre sua teoria, para com aspectos conceituais advindos da psicanálise na sua origem freudiana. Abordando a elaboração de uma psicanálise do conhecimento objetivo na epistemologia de Bachelard, elencamos três estruturas teóricas que nos ajudaram a estabelecer esta ponte conectiva para com a psicanálise, sendo estas as noções de: Ruptura, Retificação e de Obstáculo Epistemológico. A partir da reconstrução destes três conceitos como premissas da epistemologia de Bachelard, desenvolve-se posteriormente um aprofundamento das mesmas noções e das relações que elas apresentam entre os conceitos de recalque e de inconsciente, postulados na teoria psicanalítica, bem como a respectiva mudança de âmbito de sentido que o autor aplica vinculado eles ao contexto do conhecimento objetivo.
A técnica como utopia e ideologia: uma leitura da Nova Atlântida de Bacon - (2024)

Hugo Estevam Moraes de Sousa

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente artigo pretende discutir a técnica em sua perspectiva utópica e ideológica a partir da obra Nova Atlântida de Francis Bacon. Em um primeiro momento, será necessário estabelecer conceitualmente o significado de utopia e ideologia, sendo o pensamento de Paul Ricoeur a base teórica para tal. Enquanto a primeira se caracteriza por operar uma crítica à ordem estabelecida, a ideologia se propõe a manter um status quo. Deste ponto, será possível iniciar uma análise da obra de Bacon, percebendo nela o caráter utópico da técnica e de que modo ela se converte em ideologia quando assume um papel nas relações de poder e na legitimação da autoridade. Observando as tendências que tentam substituir a política e a ética pela técnica, como faz o transumanismo, o artigo conclui que é necessário fortalecer as relações de poder em sua horizontalidade para garantir que a técnica não se converta em instrumento de opressão.
As paixões da alma em René Descartes: fisiologias, utilidade e remédios - (2024)

Felini de Souza

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. Descartes dedica sua última obra ao estudo das paixões. Tema este que viria fechar as suas contribuições para a discussão da união substancial. Como que duas substâncias completas e distintas se encontram unidas? Essa interação entre corpo e alma pode não se explicar no que tange aos aspectos teóricos, mas quando Descartes parte as conclusões práticas, buscando nas paixões a chave dessa relação. Em As paixões da alma, Descartes faz uma espécie de taxionomia das paixões, classificando em seis paixões primitivas e as demais seriam suas derivadas. Ao apresentá-las trata dos seus processos fisiológicos, os movimentos que estas paixões geram no corpo, assim como apresenta as utilidades e os remédios para os excessos e faltas das paixões. Descartes não considera as paixões pecaminosas, ou doenças que precisariam ser erradicadas, mas como boas, como responsáveis pela doçura da vida, sendo necessário apenas serem conhecidas e controladas para garantir uma vida ética.