Griot : Revista de Filosofia

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Esboço para uma retomada do existencialismo: crer, desejar e brincar com e além de Sartre - (2025)

Vítor Hugo dos Reis Costa

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Trata-se de uma interpretação dos conceitos de crença, desejo, angústia e atitude de jogo tal como apresentadas por Sartre em O ser e o nada. Privilegiando o enquadramento oferecido por intérpretes de orientação heideggeriana como Gerd Bornheim e Joseph Fell, que veem em Sartre algo como um epílogo da tradição metafísica, pretendo apresentar os conceitos mencionados em uma perspectiva distinta daquela que seria a compreensão convencional do estatuto desses conceitos na já consagrada perspectiva da superação radical da má-fé. O artigo, portanto, consiste na apresentação interpretativa desse enquadramento metafísico da obra de Sartre e do estatuto desses conceitos na perspectiva de que a superação total da má-fé não é desejável – caso seja mesmo praticável. Tal apresentação interpretativa tem, por intento geral, oferecer as bases do que pode ser uma renovada atitude existencialista inspirada pelo pensamento de Sartre.
Fagologia e cismogênese - (2025)

Maurício Fernando Pitta

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Motivada por uma colocação de Eduardo Viveiros de Castro em seu prefácio ao livro Antropofagia – Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo, a noção de “fagologia” busca suprir, na economia conceitual de minha tese de doutorado, O Anti-Orfeu: por uma esferologia do ponto de vista do espectral, a carência de um conceito adequado para designar e escalonar diferentes esquemas de relação entre ontologias e para organizar alguns pares conceituais ramificados a partir da relação nuclear “eu–outro”, atravessados cada qual e entre si por uma dinâmica intrinsecamente perspectivista. Neste artigo, considerando a possível pertinência do conceito para pesquisas afins, pretendo: (1) apresentar os principais componentes do conceito, organizados em torno dos pares lógos–phágos (modos de relação com a alteridade) e topologia lógica–topologia fágica (planos topológicos); (2) desdobrar sua aplicação em dois tipos ideais simetricamente opostos (a “imunologia” e a “antropofagia”); e (3) articular, na forma dupla de um diagnóstico-prognóstico, a maneira como esses tipos ideais se relacionam, na intersecção entre o conceito de fagologia e o conceito de “cismogênese”, cunhado por Gregory Bateson e retrabalhado por autores como Viveiros de Castro, David Graeber, David Wengrow, Michael Houseman e Carlo Severi.
Hegel: o conceito de liberdade e história a partir das Linhas fundamentais da filosofia do direito - (2025)

Rosmane Gabriele V. Alves de Albuquerque

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Apesar da abundância de trabalhos e debates concernente ao conceito de liberdade, seja ela individual, coletiva ou metafísica, nota-se que as questões circundantes ao tema são inesgotáveis e passivas de reflexões. Principalmente no que diz respeito à Hegel, já que, sua filosofia não aborda o conceito de liberdade e seus seguimentos como partes isoladas, como se houvessem vários tipos de liberdade.  Pelo contrário, a liberdade em Hegel aparece como essência do espírito subjetivo que se expressa no mundo na forma do espírito objetivo, ou seja, na história. Essa, por sua vez, aparece como ação do próprio espírito através dos indivíduos. Esses, são guiados pela razão progressivamente ao autoconhecimento de que a liberdade é condição intrínseca a todos os homens. Assim, o presente artigo tem por objetivo esclarecer o conceito de liberdade em Hegel a partir da Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito (2022) e sua relação com o conceito de história.   
Hiperreligião e o desaparecimento do religioso com caráter, marcas de uma sociedade contemporânea - (2025)

André Magalhães Coelho

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Esse artigo procura analisar a hiperculturalidade pensada pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han. A hipercultura não gera massas unitárias de cultura, uma unidade monocromática. Ela desencadeia uma individualização cada vez maior, seguindo as próprias inclinações, reconfigura-se a identidade religiosa a partir de formas e práticas de vida. A hiperreligião estabelece diversas crenças a partir da qual se reconstrói uma religião própria. Etimologicamente, o caráter é o signo marcado a fogo, uma queimadura indelével. Seu traço principal é a inalterabilidade. A duração e a constância não favorecem o consumo e se excluem. O propósito deste texto é mostrar que a cultura de consumo de crenças está gradualmente eliminando qualquer sinal constante, e o declínio do aspecto religioso vai impondo um consumidor sem caráter.
Integrating Innovation with Integrity: Navigating the Humanistic and Ethical Dimensions of the Fourth Industrial Revolution - (2025)

Nga Thi Khuat

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. The Fourth Industrial Revolution (4IR) marks a transformative period in which the convergence of biological, digital, and physical technologies redefines human existence and societal structures. This paper critically examines the philosophical, ethical, and socio-political implications of these advancements, advocating for an integrative approach that aligns rapid technological innovation with enduring humanistic values. By addressing the potential for both human advancement and the exacerbation of social inequalities, the study emphasizes the importance of ethical reflection, robust regulatory frameworks, and educational reforms. It further explores the profound changes in work, identity, and community dynamics, calling for proactive policies to ensure equitable access to the benefits of 4IR while preserving human diversity. Ultimately, this analysis calls for a responsible and ethical engagement with emerging technologies to foster a future that promotes justice, human dignity, and planetary sustainability.
O teatro Político e a democracia ateniense - (2025)

Jean Farias

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. O objetivo deste artigo é analisar a relação da tragédia com a política, com a democracia e com o contexto social da Atenas no século V. A ideia do texto é debater como a tragédia reverberava questões importantes da sociedade ateniense. Na primeira parte do texto apresentamos um resumo bastante sucinto do contexto original das tragédias, a saber, os rituais em hora ao deus Dionísio, celebrando a fertilidade e a colheita. Na segunda parte o texto apresenta uma abordagem mais ampla da relação entre a tragédia e a política ateniense, tentando contrastar os ritos religiosos do primeiro momento com o teatro trágico que era praticado na cidade. Neste contexto a questão da pólis torna-se um elemento fundamental para tragédias. Na terceira parte do texto focamos em Eurípides como guia da nossa abordagem. Por meio da tragédia euripidiana tentamos enfatizar como os temas políticos estavam presentes no teatro grego.
Os caminhos de Schopenhauer em direção às origens sensualistas - (2025)

André Mário Gonçalves Oliveira

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Este artigo tem como objetivo demonstrar as raízes filosóficas de Arthur Schopenhauer no movimento sensualista. Para tanto, proponho afastá-lo das alegações de uma influência irrestrita do Romantismo, sem, contudo, descartar o influxo desse movimento, que reflete o espírito de sua época. O foco é aproximar o filósofo alemão de um dos movimentos que, embora menor, impulsionou o período romântico: o Sensualismo. Esse movimento, que atribui todas as funções da alma e, por conseguinte, todo o conhecimento às sensações, como exposto no Tratado das Sensações, de Étienne Bonnot de Condillac — frequentemente apontado como precursor do sensualismo — exerceu grande influência sobre filósofos franceses, entre os quais se destacam alguns de seus alunos e discípulos, que mais tarde buscaram expandir e aprimorar essa doutrina. A hipótese de uma influência sensualista em Schopenhauer será sustentada por meio de duas teses: 1) a transição entre intelecto e vontade, apresentada em sua obra magna, O Mundo como Vontade e Representação, que será relacionada à fisiologia francesa; e 2) seu breve tratado sobre educação, exposto em Parerga e Paralipomena, que será associado à pedagogia de Johann Pestalozzi.
Os conceitos fundamentais da filosofia da cultura de Tobias Barreto - (2025)

Leonardo de Sousa Oliveira Tavares

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. O artigo a seguir é dedicado à filosofia da cultura desenvolvida por Tobias Barreto e às implicações que esta é capaz de oferecer ao exercício filosófico. O autor das Glosas Heterodoxas a um dos Motes do Dia, ou Variações Antissociológicas (1884/1887) apresenta-nos um modo de conceber a cultura que tem algo a contribuir para a caracterização filosófica deste conceito. Em sua fase neokantiana, a tematização da cultura é marcada por uma reflexão que transpõe os limites da teoria do direito para avançar na direção da epistemologia e da antropologia filosófica, no ato inaugural de uma filosofia da cultura que influenciará diretamente o culturalismo brasileiro. Ao definir a cultura como o resultado das criações livres da humanidade em sociedade, a filosofia barretiana abre-nos um horizonte de consideração da cultura como o solo incontornável das realizações humanas. A partir desta concepção, se nenhum valor capaz de guiar a humanidade surge incriado na história das civilizações, é pelo fato de que há um processo de cultivo interminável, no qual a humanidade é livremente efetivada. Na origem deste mesmo processo, há um esforço para fazer triunfar os valores atuais, numa constante negação da natureza. Conforme analisamos, diante das articulações barretianas dos conceitos de cultura, natureza, sociedade e liberdade, somos convidados ao exercício de pensar em que medida a própria filosofia é responsável por nos acordar do sono cultural, a partir do qual esquecemos que a vida teórica e as suas leis brotam do domínio cultural dos valores.
Sobre a justiça da lei: estudo sobre lei eterna e humana à luz de Agostinho de Hipona - (2025)

Ricardo Evangelista Brandão

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. No presente artigo se investigou a relação entre lei natural e lei positiva (eterna e humana conforme o autor), segundo o prisma de Agostinho e Cícero. A escolha de dois autores com distância temporal de quatro séculos, e, consequentemente, com certa disparidade entre os contextos políticos, justifica-se por Cícero se constituir importante fonte teórica para Agostinho na matéria. Assim, no presente texto, por meio do estudo de diversos textos de Agostinho e Cícero, se pesquisou os conceitos de ambos sobre os apontados aspectos da lei, e a partir dessa pesquisa se estabeleceu uma análise dialogal entre os dois para entender o teor da influência de Cícero em Agostinho no assunto. Ambos os filósofos – com algumas variações - defenderam que a lei natural é universal, contém uma exortação para se manter a ordem natural por meio de ordenamentos imperativos e proibitivos, que se faz presente no homem por uma inclinação na razão (reta razão). Logo, os homens são capazes, por meio desse bom senso racional, de construir regramentos jurídicos que considerem os contextos de cada povo, regramentos esses guiados pelos princípios orientadores da lei natural.
Substância, atributo e modo na filosofia de Descartes: um passeio pelas suas definições, problemas e ambiguidades - (2025)

Giorgio Gonçalves Ferreira

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Neste artigo serão analisadas as noções de substância, atributo e modo na metafísica cartesiana e os problemas que giram em torno dessas noções, seja em suas definições seja nas relações que estabelecem entre si. Serão analisadas, inicialmente, as diversas definições que a noção de substância possui e os problemas oriundos dessas definições. Em seguida, o mesmo tratamento será dispensado às noções de atributo e modo. Feito isso, a análise focará nas relações estabelecidas por estas noções. Por fim, pretende-se evidenciar a confusão entre três níveis distintos do ser — formal, ontológico e numérico — existente no sistema cartesiano e que as tentativas de solucionar problemas que o próprio autor não conseguiu terminam por inserir no pensamento do autor consequências que ele jamais aceitou, ou por ocultar afirmações explicitamente formuladas.
Uma análise filosófica da natureza humana em Os Irmãos Karamázov - (2025)

Pedro João da Silva Bisneto

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Fiódor Dostoiévski, proeminente romancista da literatura russa, sempre foi muito marcado pela complexidade dos termos e das formas com as quais seus enredos se desenvolviam, indicando, em boa parte deles, uma necessidade de escavação e de estruturação de uma análise das individualidades e da natureza de cada um dos seus personagens, tanto que durante muito tempo, alguns críticos o liam como um autor de filosofia, o que, todavia, não acontece. Reconhecendo as naturais diferentes que sua obra tem do texto, pretendemos, aqui, estreitar uma relação clara e direta do texto literário com o texto filosófico – indicando essa crítica à forma e o modelo filosófico -, rompendo os limites de subordinação e/ou inferioridade entre as áreas, o que possibilita uma amplo diálogo entre obras e conceitos distintos. Para isso, tomarei como ponto de partida a obra Os Irmãos Karamázov para tentar identificar um recorte paradoxalmente objetivo de uma abordagem da narrativa cristã do pecado, perpassando por conceitos como a queda, o pecado original e o pecado hereditário. A costura dessas observações se dará mediante o esforço de uma leitura que enquadra o debate sobre a natureza humana na formação e representação dos Karamazov enquanto representante do gênero humano, perpassando seus conflitos e embates oriundos da não aceitação dessa natureza, além, obviamente, da complexa relação que cada uma dos Karamazov, semelhante ao homem, desenvolve com sua situação qualitativa.
Vidante: apresentação de um filosofar de candomblé - (2025)

Adeir Ferreira Alves

Volume: 25 - Issue: 1

Resumo. Criado no doutoramento para apresentar o já existente filosofar de candomblé, “vidante” significa “vida diante do modo de vida do candomblé”, que busca romper com paradigmas epistêmicos do cânone da filosofia tradicional – especialmente no que diz respeito à ontologia, à história e à poética – e romper com paradigmas culturais centralistas presentes na cosmopercepção africana (bantocracia e nagocracia). Vidante (representação de pessoas negras, conceito, testemunha) rompe também com a “zona de não-ser” (espécie de política de morte) falada por Frantz Fanon, porque o seu principal objetivo é deslocar as pessoas negras da outridade para um “repatriamento identitário” encantado capaz de produzir cura – ao conduzir as pessoas negras às suas ancestralidades. Vidante entroniza o orixá Logunedé para apresentar o encantamento como filosofar específico no veio onto-epistêmico da cosmopercepção africana que parte do candomblé. O destaque em Logunedé não centraliza o filosofar na tradição iorubana, mas pensa a partir dos diferentes caminhos que esse orixá conflui, e o vidante entroniza Logunedé para vivenciar, expressar, pensar de modo espiralado e encantado – também aos modos de Exú e do Saci Pererê – por esse caminho que segue rumo ao candomblé para falar sobre o repatriamento identitário, ao qual muitas pessoas negras se sentem atraídas para recompor o seu ser – até então fragmentado, expatriado –, ao invés de simplesmente se instalarem em uma arrogada política de vida, mais focada no aspecto político que na vida. Esse texto dá à inteligência negra e à filosofia um signo, sentidos e significados existenciais novos a partir da questão racial negra.
A compartimentalização da vida em papéis sociais: estudo a partir de Alasdair MacIntyre - (2024)

Leandro Bertoncello

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. Este estudo investiga a fragmentação do self em papéis sociais e suas implicações para a responsabilidade moral, com base na filosofia de Alasdair MacIntyre. A análise se concentra na cultura contemporânea caracterizada pelo emotivismo, que dificulta o reconhecimento de um bem humano universal e o desenvolvimento da agência moral. MacIntyre critica o individualismo liberal da modernidade, sugerindo que a compartimentalização dos papéis sociais resulta em uma desordem moral, impedindo a formação de um self unificado. Ele argumenta que, ao agir conforme normas específicas de cada papel social, os indivíduos desconsideram um bem maior, exemplificado pela falta de integridade e constância, virtudes essenciais para a posse de outras virtudes. A pesquisa destaca a importância de ambientes que permitam a reflexão crítica e o desenvolvimento da agência moral. Na ausência desses ambientes, um agente moral pode falhar em reconhecer e transcender os padrões vigentes, levando a uma responsabilidade moral compartilhada pela estrutura sociocultural. MacIntyre propõe que os agentes morais devem ser responsáveis não apenas pelos seus papéis sociais, mas também como indivíduos racionais, promovendo um diálogo intersubjetivo e a busca por um bem maior para a vida humana.
A ideia de behaviorismo epistemológico em Rorty: um holismo sem suportes metafísicos - (2024)

Bruno Araujo Alencar, Heraldo Aparecido Silva

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente ensaio analisa o entendimento de behaviorismo epistemológico como um holismo sem pressupostos metafísicos, a partir de Richard Rorty (1931-2007). Para tanto, partiremos da ideia do “Mito do Dado” de Wilfrid Sellars, como um impulso filosófico ao qual Rorty se apropria para desenvolver a sua noção de que o behaviorismo epistemológico seria, na melhor das hipóteses, um holismo para criar contextos de justificação.  Inicialmente, proporemos uma discussão sobre a questão do nominalismo psicológico, apresentado no texto de Margutti, Ceticismo, pragmatismo e a crítica de Sellars ao “Mito do Dado”, observando como tal pressuposto constitui uma crítica rortyana para se chegar à ênfase da proposta. Em seguida, iremos ressaltar o entendimento que o filósofo neopragmatista tem do que é para ele, a noção de behaviorismo epistemológico, sem conotações metafísicas, uma em que parte da visão de dados sensíveis e epistêmicos para explicar nossa ação com o mundo, até uma que enfatiza a ideia de que seria melhor percebido como um holismo, isto é, um jogo de linguagem que diz qual o melhor jogo pode ser jogado, através de uma prática de justificação social. Nosso trabalho conta com o aporte teórico de Rorty (1979), Margutti (2000), entre outros. Nosso estudo indica que para se desvincular de explicações metafísicas e (re) descrever o behaviorismo epistemológico, Rorty aponta uma saída por meio de aparatos linguísticos que proporcionam uma ambientação em práticas sociais que permitem ir além de impressões sensíveis ou dados cognitivos, esclarecendo como a proposta pode ser difusa se estiver alinhada com a justificação ao invés da explicação.
A materialização da consciência e a defesa da fenomenologia transcendental em Husserl - (2024)

Guilherme Felipe Carvalho, Federico Ferraguto

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente artigo pretende discutir a defesa que Husserl faz da fenomenologia transcendental diante da atitude de materialização e da naturalização da consciência, que domina na atitude que está na base da formação das ciências naturais. Herdando certos elementos da Filosofia Clássica Alemã, Husserl compreende que é somente por meio do a priori que a filosofia pode ser efetivada como ciência rigorosa. A análise se desenvolverá, inicialmente, por meio da discussão crítica do problema que Husserl indica haver nas ciências baseadas na atitude natural, ou seja, a materialização da consciência. Em seguida, mostraremos como diante do projeto de construção de uma filosofia como ciência rigorosa, o naturalismo, ingênuo em sua fundamentação, é o principal obstáculo a ser superado por conta  das consequências que dele podem surgir, implicando em correntes como o psicologismo, materialismo e positivismo. Por fim, apontaremos a maneira como Husserl faz uma defesa da fenomenologia transcendental contra a ingenuidade da ciência natural que permanece presa nos fatos empíricos e faz destes o critério último de atestação da verdade.
A psicanálise na vertente diurna de Bachelard: psicanálise do conhecimento objetivo - (2024)

Pedro Olivieri Fonseca

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente trabalho pretende estabelecer uma interpretação argumentativa da teoria epistemológica na filosofia bachelardiana, a fim de demonstrar o espaço em que se inserem suas reflexões sobre a psicanálise na ordem do desenvolvimento do conhecimento científico. Esta abordagem epistemológica pode ser encontrada em seu conjunto de obras que compõem o que é denominado como a vertente diurna do autor, dentro deste campo de estudos destacamos a obra do ano de 1938, intitulada de: A Formação do Espírito Científico. A partir deste contexto, nossos esforços se concentram, sobretudo, na relação que se estabelece entre sua teoria, para com aspectos conceituais advindos da psicanálise na sua origem freudiana. Abordando a elaboração de uma psicanálise do conhecimento objetivo na epistemologia de Bachelard, elencamos três estruturas teóricas que nos ajudaram a estabelecer esta ponte conectiva para com a psicanálise, sendo estas as noções de: Ruptura, Retificação e de Obstáculo Epistemológico. A partir da reconstrução destes três conceitos como premissas da epistemologia de Bachelard, desenvolve-se posteriormente um aprofundamento das mesmas noções e das relações que elas apresentam entre os conceitos de recalque e de inconsciente, postulados na teoria psicanalítica, bem como a respectiva mudança de âmbito de sentido que o autor aplica vinculado eles ao contexto do conhecimento objetivo.
A técnica como utopia e ideologia: uma leitura da Nova Atlântida de Bacon - (2024)

Hugo Estevam Moraes de Sousa

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente artigo pretende discutir a técnica em sua perspectiva utópica e ideológica a partir da obra Nova Atlântida de Francis Bacon. Em um primeiro momento, será necessário estabelecer conceitualmente o significado de utopia e ideologia, sendo o pensamento de Paul Ricoeur a base teórica para tal. Enquanto a primeira se caracteriza por operar uma crítica à ordem estabelecida, a ideologia se propõe a manter um status quo. Deste ponto, será possível iniciar uma análise da obra de Bacon, percebendo nela o caráter utópico da técnica e de que modo ela se converte em ideologia quando assume um papel nas relações de poder e na legitimação da autoridade. Observando as tendências que tentam substituir a política e a ética pela técnica, como faz o transumanismo, o artigo conclui que é necessário fortalecer as relações de poder em sua horizontalidade para garantir que a técnica não se converta em instrumento de opressão.
As paixões da alma em René Descartes: fisiologias, utilidade e remédios - (2024)

Felini de Souza

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. Descartes dedica sua última obra ao estudo das paixões. Tema este que viria fechar as suas contribuições para a discussão da união substancial. Como que duas substâncias completas e distintas se encontram unidas? Essa interação entre corpo e alma pode não se explicar no que tange aos aspectos teóricos, mas quando Descartes parte as conclusões práticas, buscando nas paixões a chave dessa relação. Em As paixões da alma, Descartes faz uma espécie de taxionomia das paixões, classificando em seis paixões primitivas e as demais seriam suas derivadas. Ao apresentá-las trata dos seus processos fisiológicos, os movimentos que estas paixões geram no corpo, assim como apresenta as utilidades e os remédios para os excessos e faltas das paixões. Descartes não considera as paixões pecaminosas, ou doenças que precisariam ser erradicadas, mas como boas, como responsáveis pela doçura da vida, sendo necessário apenas serem conhecidas e controladas para garantir uma vida ética.
Conhecimento e desapontamento: as bases teórico-metodológicas para o diagnóstico cavelliano da frustração epistemológica moderna - (2024)

Pedro Monte Kling

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. Etapa substancial de The Claim of Reason, a crítica de Stanley Cavell a tradição epistemológica moderna é um empreendimento singular e intrincado, sustentado por diferentes intuições e estratégias. Em vista disso, o objetivo central do presente artigo é articular as principais bases teóricas e metodológicas que regem tal leitura dos procedimentos da epistemologia tradicional, e, com efeito, todo o projeto filosófico cavelliano, de forma a fornecer um alicerce imprescindível para aqueles que pretendem adentrar na obra do americano. São apresentados, assim, os fundamentos e métodos da filosofia da linguagem comum, herdados principalmente de Austin, e sofisticados por Cavell em Must We Mean What We Say?; as inovadoras teses acerca do problema cético moderno propostas por Thompson Clarke em O Legado do Ceticismo; e os princípios da heterodoxa interpretação cavelliana das Investigações Filosóficas de Wittgenstein, amparada pela análise dos critérios gramaticais. Assim postas lado a lado, as três ideias ajudam a esclarecer a hipótese inaugural de The Claim of Reason, de que a noção clássica de conhecimento enquanto certeza tem de estar equivocada. Por fim, a sugestão cavelliana alternativa de um conhecimento enquanto reconhecimento é brevemente abordada e localizada dentro do cenário mais amplo das teorias do conhecimento. Com isso, pretende-se mostrar que a crítica cavelliana tem como objetivo não apenas diagnosticar uma inquietação epistemológica nascida na modernidade, mas também argumentar que ela não pode ser eliminada com uma refutação do ceticismo, mas somente reconhecida através da aceitação de sua verdade.
Descifrando el camino intelectual y formativo de E. Husserl a través de sus influencias matemáticas - (2024)

Luís Canela

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. El objetivo de este artículo es presentar y conectar el panorama intelectual inmediato, especialmente en el ámbito matemático, que Husserl se apropió durante sus primeros años de formación, centrándonos en las investigaciones de B. Riemann, R. Dedekind y G. Cantor. Se busca, en particular, evidenciar cómo Husserl reinterpreta filosóficamente los conceptos matemáticos que estos autores utilizaron. Partimos de la hipótesis de que, en el horizonte intelectual del joven Husserl, existen puntos de convergencia con el surgimiento de la moderna teoría de conjuntos. Reconocer estos antecedentes justifica plenamente el trabajo que aquí presentaré. Comenzaré, por tanto, revisando las obras de Riemann, Dedekind y Cantor, al tiempo que mostraré su influencia en la obra de Husserl, y concluiré con las reflexiones pertinentes.
Foucault e a escuta no pitagorismo: uma prática entre a filosofia e a espiritualidade - (2024)

Fabiano Incerti

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. Nas práticas filosófico-espirituais propostas pelos antigos greco-romanos para o cuidado de si (epiméleia heautoû), destacam-se aquelas relacionados à escuta. Escutar caracterizou-se, no interior de uma série de exercícios, como ler, escrever, memorizar e meditar, a forma primeira e mais privilegiada de apropriação da verdade pelo sujeito. Partindo das análises realizadas por Michel Foucault acerca do cuidado de si em sua Hermenêutica do Sujeito e passando por comentadores fundamentais do pensamento de Pitágoras, este trabalho tem por objetivo abordar a escuta, possivelmente em suas orientações mais antigas, como processo de domínio de si e como prática ascética. Atravessado pela exigência da escuta e do silêncio, como exercício obrigatório de introdução e permanência na escola, o discípulo pitagórico era convidado a transformar-se, em vista de buscar constantemente a sabedoria, a exemplo de seu mestre.
Hannah Arendt e o desafio da estabilidade das instituições políticas em um mundo secular - (2024)

Edson kretle Santos

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. Almejamos analisar o tema da autoridade e suas interfaces com a crise da tradição, o processo de secularização e o poder no processo fundacional do estado secular tendo como grande desafio “pensar sem corrimão” em uma época secularizada. Buscaremos compreender a autoridade como elemento de estabilidade do Estado ao manter vivos os alicerces da fundação por meio das instituições. Nesse sentido, a institucionalização de uma estrutura duradoura somente é possível quando as pessoas são capazes de preservar, por meio da ação coletiva, as forças que surgem entre elas, à medida que os humanos habitam o planeta. Esses acordos mútuos produzem uma Constituição para atenuar o peso da imprevisibilidade da ação humana. Ao mesmo tempo, a Constituição cria e nutre o poder político dentro dos princípios da fundação. Desta forma, a autoridade constitucional assume o papel da autoridade e não reside mais na força ou na violência de seus fundadores, mas à proporção que na imaginação simbólica o cidadão compreende no evento fundador um modelo para ação política no presente.    
John Locke’s Educational Philosophy: Relevance and Application to Contemporary Vietnamese Education - (2024)

Hue Nguyen

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. This study examines John Locke’s educational philosophy and explores its relevance and potential application in the context of contemporary Vietnamese education. John Locke (1632–1704), a pivotal figure in English philosophy, developed a comprehensive educational framework emphasizing intellectual, moral, and physical development. His approach is distinguished by its focus on moral education, the cultivation of good habits, and the use of gentle, persuasive teaching methods rather than punitive measures. Locke advocated for individualized education tailored to each child’s unique characteristics, an idea that continues to resonate in modern educational practices. This paper analyzes Locke’s educational objectives, content, and methods, highlighting their progressive nature and how they can be integrated into Vietnam’s ongoing educational reforms. By drawing on the positive elements of Locke’s philosophy, this study provides insights into how Vietnam can enhance its education system to better meet the needs of its students and align with international educational standards.
Miragens do negativo - a experiência humana em Descartes e na psicanálise - (2024)

Abel dos Santos Beserra

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. O presente artigo procura investigar como a partir da modernidade, com base na filosofia de Descartes, a compreensão da experiência humana, do sujeito moderno, passou a se valer de alguma noção de negativo. A fim de verificar de que modo isso chega à contemporaneidade, é também realizado o estudo de como a psicanálise, em sua vertente freudiana e lacaniana, descreve a experiência do sujeito também a partir de uma ideia de negativo. A hipótese que defendemos é a de que uma certa noção de negativo surge como indispensável para a adequada discussão da experiência humana desse sujeito que surge na modernidade: em primeiro lugar, por parte da filosofia cartesiana ao propor o conceito de paixões da alma; e, em segundo lugar, por parte da psicanálise ao formular a ideia de pulsão. Por fim, cabe indicar que tomamos principalmente o Tratado das paixões de Descartes e os textos sobre metapsicologia, teóricos, da psicanálise como pontos de partida.
Nietzsche sobre o dionisíaco e a conexão humano-natureza - (2024)

Matheus Becari Dias

Volume: 24 - Issue: 3

Resumo. Este artigo explora a interrelação entre o impulso artístico dionisíaco, a natureza humana e a cultura grega na obra de juventude de Friedrich Nietzsche (1844-1900). Com foco na relevância da conexão humano-natureza, aponta-se a concepção antropológica do pensamento trágico antigo e o reconhecimento do papel dos instintos na produção da arte trágica. O impulso artístico dionisíaco, associado por Nietzsche à pulsão vital de criação e destruição, apresenta, na celebração da reconciliação do humano com a natureza, aspectos existenciais fundamentais à humanidade que foram deixados de lado pela tradição ocidental. Em sua dimensão artística, o dionisíaco se expressa também como instinto, promovendo uma ligação corporal e espiritual, por meio da qual o artista trágico se torna obra de arte. Em sua dimensão vital, o dionisíaco promove a dissolução da subjetividade do indivíduo, remetendo-o à sua natureza primordial e à reconexão com a animalidade. A negação desses elementos artísticos pelo espírito socrático levou ao esquecimento da própria natureza humana, resultando na distorção da criação artística e, consequentemente, no declínio da tragédia. Nesse contexto, a proposta socrática de abnegação da natureza instintiva em favor da vida intelectual é contrastada por Nietzsche, que, através da perspectiva trágica, argumenta que o ser humano não supera sua natureza animal, mas permanece subjugado a ela, em uma conexão com a animalidade, posicionando-se assim no debate antropológico em contraposição à tradição filosófica iniciada por Sócrates.