Palíndromo

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Carta ao Prêmio Jabuti: Stella - (2025)

Jandir Jr.

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome foi publicado originalmente em 2001 e tornou conhecido o nome de Stella do Patrocínio, autora do falatório (termo da própria autora) que deu origem ao livro. Gravada na Colônia Juliano Moreira – complexo manicomial em que foi internada por décadas –, teve trechos de suas falas transcritos muito depois de seu falecimento. Os áudios só foram disponibilizados na íntegra vinte e um anos após o livro, graças ao esforço empreendido por Sara Ramos em sua dissertação de mestrado. Com a intenção de somar às leituras que tem apontado problemáticas na celebração irrestrita de Stella do Patrocínio como poeta, contrapondo a isso à privação do cuidado em liberdade e da possibilidade de decidir por si mesma que sofreu (concernente às políticas de Estado no século XX contra pessoas negras e diagnosticadas, e suas marcas até hoje na assistência à saúde e cultura nacionais), esta carta foi enviada ao Prêmio Jabuti, ao qual o livro foi indicado em 2002. Endereçada junto a algumas páginas da coletânea Escritos de Artistas: anos 60/70, nas quais foram suprimidas todas as palavras de um dos seus capítulos, com exceção de um sobrenome, a carta argumenta sobre a importância das respostas negativas que Stella empreendeu durante as conversas gravadas, e que na sua maioria não foram transcritas no livro indicado ao prêmio. Entendendo que os nãos de Stella, sua busca por quietude, têm uma importância tão grande quanto a de seu falatório.
Em direção ao ruído: loop de desaparecimentos ao rés do corpo - (2025)

Caroline Alciones de Oliveira Leite

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. Este artigo se dedica a uma análise do disco Isto (2019), obra de Cildo Meireles realizada com a voz da locutora Íris Lettieri. Assim como em Isto o artista recorreu ao loop para reunir, sonoramente e sutilmente, ambos os lados do disco, a escrita deste artigo se faz em loop, não sendo estruturada em subcapítulos ou em partes, mas propondo-se em um fluxo contínuo, apresentando o contexto de criação da obra para, imediatamente em seguida, se dedicar a uma escuta da obra atravessada por aspectos teóricos que se sobrepõem e se transpõem como a altura da voz da locutora em Isto. O artigo conta com entrevistas concedidas por Cildo Meireles à autora e, partir do interesse do artista em topologia, articula investigações sobre dimensões altas com a noção de loop. Propõe, assim, o sonoro como uma possibilidade de dimensão perceptiva nas artes na qual a escuta se dá no corpo como um todo através da poesia.
Escuta aí: considerações sobre o lugar da escuta na arte - (2025)

Alexandre Siqueira de Freitas

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. Neste texto, pretende-se refletir sobre o termo “escuta” no domínio da arte, reunindo e colocando em diálogo quatro perspectivas distintas não excludentes. A primeira aborda os limites entre as artes, sublinhando sua mobilidade, de acordo com Pareyson e autores ligados à estética comparada (Souriau, Bosseur, Dénizeau, Freitas). A segunda traz a noção de “sinestesia”, pelo viés da ciência (Bergantini, Sacks) e da fenomenologia (Merleau-Ponty, Caznok) e como esta pode se aplicar ao contexto artístico, em especial nas relações entre audição e visão. Em seguida, enfoca-se uma acepção de “imagem”, como denominador comum de variadas experiências sensoriais, baseado sobretudo em Iazzetta. Por fim, expõe-se as particularidades no entendimento de escuta de Szendy, como “escrita” e “arranjo”. Estas perspectivas – que convocam diferentes conceitos e acepções – complementam-se na expectativa de enfatizar uma compreensão ampliada de escuta e, quem sabe, fomentar novas pesquisas e criações artísticas.
MAPA [Fragmentos Postais] - (2025)

Ana Emerich

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. MAPA [fragmentos postais] é um ensaio visual e sonoro, e elabora uma escrita em campo ampliado ao conjugar fotografias de pesquisa in situ, cartografias com dados factuais e três cartões postais – imagem em preto e branco (frente) e sinopse com QR Code para escuta de uma composição sonora com arquivos (verso). Cada fragmento postal pode ser lido como recorte poético-territorial de uma pesquisa artística mais ampla, a partir da Lista de Agrotóxicos oficialmente disponível para uso no Brasil. Série com início em 2020, cada trecho dedica-se à correspondente letra do alfabeto e articula sonoridades produzidas por corpos humanos e não humanos, aparatos e aspectos do cenário geopolítico, contextos ambientais, imagens e práticas de arquivo. MAPA (I) Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; (II) Desenho de território, cartografia; (III) Imaginário das coisas que nos entram pela boca e das palavras que nos faltam diante das políticas socioambientais do Brasil. Como nomes tóxicos e sonoridades orgânicas compõem traços e desvios, constroem e desestabilizam imagens?
Monstera: folha verde, folha de (a) notar ondas sonoras - (2025)

Gabriela Maria Nobre Serôa Campos

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. O presente texto articula a experiência pessoal da autora com a planta Monstera (popularmente conhecida como Costela de Adão) com o conceito de "fazer parentes" de Donna Haraway, e busca pensar a interdependência entre humanos e outras espécies. A autora descreve o processo de criação do seu álbum musical "Monstera", considerando a planta como um ponto de partida para a experimentação sonora. Tal processo se daria para além de uma tradução literal entre planta e sujeito, conectando-se com “uma linguagem do sensível”. Através da experiência com o cultivo da Monstera e da leitura de Haraway, a autora busca repensar uma visão antropocêntrica, ao estabelecer uma relação horizontal e de cuidado com outras formas de vida. O texto se configura como um relato autobiográfico que se entrelaça com a discussão de teorias contemporâneas sobre o antropoceno e o papel da arte na construção de novas formas de pensar e agir no mundo. A autora, através da sua experiência musical e da sua relação com a planta, nos convida a repensar nossa relação com o mundo natural e a buscar novas formas de coexistência.
Música Eletrovocal: erotismo, eletromagnetismos e vocalidades - (2025)

Flora Ferreira Holderbaum

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. O conceito de “eletrovocal” (Bossi, 2005; Bosma, 2013; Mendes, 2018; Holmes,  2022), pode servir como gatilho para abordar aspectos de agenciamento de enunciação e erotismo, na utilização da voz na música eletrônica e eletroacústica, em especial vocalizada e composta por mulheres. O erotismo aqui é palavra ética para designar um sentido para componentes afetivos, incorpóreos, presentes nas trocas das relações, mas também nos materiais de sentido, no componentes heterogêneos entre som, voz, instrumentos e dispositivos tecnológicos. Está presente no sopro ressonante de vocalidade que incorpora o logos (Cavarero, 2014) e na palavra poética, segundo Octávio Paz (1994). Desejo e erotismo são potencias enquanto agência e agenciamento da voz e da eletrônica. Agenciamento como unidade real mínima que produz os enunciados, sempre coletivos, que põe em jogo, em nós e fora de nós, populações, multiplicidades, territórios, devires, afetos, acontecimentos. (Deleuze; Guattari, 1995).
Notas para Paisagens Futuras ou Relevos Gritantes - (2025)

Camila Proto

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. Neste ensaio especulativo de campo, apresenta-se a operação artística da (a)notação, enquanto uma metodologia poética entre a escrita e a escuta da Terra. Através de um texto que deriva entre um formato acadêmico e outro ficcional, nota-se uma pedra que grita, no silêncio de sua imensidão, e múltiplas paisagens futuras que irrompem diante a especulação de como ler um relevo que ressoa. Todavia, distintas notas lançam ao leitor problemáticas sobre a atenção (em um mundo totalmente desconectado), a inscrição (em um mundo totalmente codificado) e o relato (em um mundo totalmente informacional), propondo, assim, um giro especulativo dos modos tradicionais das anotações de campo científicas, ao posicionar a escuta como sentido e prática fundamental para a escrita de impressões mais sensíveis e menos antropocêntricas.
Recepção: sobre relações auditivas/esculturais no espaço público - (2025)

Lukas Kühne

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. O espaço público é um terreno onde os valores da democracia se manifestam em vizinhança direta de certas condições anárquicas. Trata-se da inter-relação entre arte e vida, onde a sociedade se revela e se constrói em espaços compartilhados. Que tipo de relação um espaço sonoro reativo gera ou questiona em relação ao público ouvinte? Em que contexto e de que forma a obra possui memória sonora? O que simboliza o lugar e a proposta interativa, com a acústica pura transferindo tempo e espaço ao som? O que nos motiva a medir e definir o espaço é um desejo essencial que acompanha o impulso de refletir e fazer perguntas. Esta equação pode relacionar-se igualmente entre a escultura no campo expandido e a análise do som, sobre seu impacto particular no espaço.
Remarks on Sound Stallation - (2025)

Carsten Seiffarth

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. This text explores the evolution of sound art from its origins to contemporary practice. Focusing on sound installations and sculptures, the author distinguishes the sound instalation art from broader sound art practices. The importance of space in defining sound art is emphasized, contrasting it with music and other audio-based art forms. The text traces the historical development of sound installations, highlighting key figures and movements, while also critiquing recent trends that prioritize technology over spatial experience. A clear distinction is drawn between sound art and sound installation art, with the latter being defined as the creative use of sound as a material within a specific space.
Ressonância, eco e outros modos de propagação de afetos - (2025)

Tato Taborda

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. O texto apresenta reflexões a partir do livro “Ressonâncias: vibrações por simpatia e frequências de insurgências”, publicado pela Editora UFRJ, em 2021. Ressalta-se que a ressonância ou vibração por simpatia é, inicialmente, um fenômeno acústico em que corpos entram em vibração espontânea a partir de sua afinidade com frequências de outros corpos. No entanto, as manifestações desse modo relacional transcendem a acústica, designando verdadeiras usinas de criação (e destruição) de mundos, sejam eles objetivos, como as formas no universo observável ou subjetivos, constituídos por frequências de afeto postas em relação responsiva. Entrar em ressonância é deixar-se arrebatar pela identificação de que a frequência de um corpo externo corresponde à sua própria, presente em latência. Se a ressonância pode desintegrar pontes ou levar taças de cristal à catástrofe, um enxameamento de práticas ressonantes pode alcançar potência suficiente para também fazer ruir outras estruturas.
Sob ruído: pistas sonoras, errâncias, descaminhos e obstáculos - (2025)

Ricardo Roclaw  Basbaum

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. Neste texto, apresento diversos momentos do desdobramento de minha prática artística, em um percurso que se inicia nos anos 1980 e se estende ao período atual. É destacada a importância da elaboração conceitual, como uma das ferramentas de trabalho dos artistas contemporâneos, quando conduzida em proximidade com as formulações materiais em jogo e as soluções formais adotadas. A cada momento, procura-se enfatizar a presença de camadas sonoras, cuja ativação é sempre significativa e relevante, dentro das ações em curso. As ações artísticas são tomadas como ‘ruidosas’, implicando sempre em soluções sônicas variadas e modalidades diversas de escuta.
Torres-García revisitado: a exposição Tiempo de mirar e a (re)a presentação de obras de arte destruídas - (2025)

Maria de Fatima Morethy Couto, Isabela De Vita Jaha

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. O artigo tem como objetivo analisar a expografia da mostra Tiempo de Mirar: visita virtual a las obras perdidas en el incendio en Rio de Janeiro, ocorrida no Museo Torres-García em 2018, bem como estudar os fragmentos ali exibidos. Em julho de 1978, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro sofreu um trágico incêndio que destruiu diversas obras de arte, incluindo 74 trabalhos - entre pinturas, esculturas e brinquedos - de Joaquín Torres-García, artista uruguaio cujas obras foram as mais afetadas numericamente. A mostra Tiempo de Mirar dedicou-se a reapresentar estas obras destruídas para o público, via realidade aumentada. Os visitantes podiam acessá-las pela câmera do celular ao apontar para os QR Codes nas paredes. A mostra também colocou em exposição fragmentos de trabalhos bastante deteriorados pelo incêndio, fazendo conviver, no mesmo espaço, ausência e presença, e provocando um processo de rememoração.
Ecomuseu Urbano: do canto ao grito, o silêncio - (2024)

Osvaldo (Vado) Vergara Borges, Cláudia Vicari Zanatta

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. Este artigo enfoca um deslocamento de 24 horas, divididas em 4 dias de caminhadas, realizadas pelo Ecomuseu Urbano, incursão existencial dos artistas Cláudia Zanatta e Vado Vergara, após um temporal em Porto Alegre. Tendo como base a caminhada como metodologia, a leitura da Odisseia, de Homero, e um plantio realizado no espaço público da cidade, são tecidas as argumentações usando o método de montagem, proposto por Walter Benjamin, para refletir sobre as modificações neste centro urbano e seu impacto no imaginário. Indaga-se, também, como o que está na origem da narrativa homérica reverbera enquanto projeto de dominação como ordem na cidade contemporânea, relacionando-o a uma proposta em arte contemporânea.
Editorial Dossiê - (2024)

Maria Raquel da Silva Stolf, Giuliano Obici

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. O dossiê ESCUTAS: Processos, Proposições e Modulações do Sonoro reúne investigações, reflexões e propostas acerca de práticas, procedimentos e projetos co-implicados em diferentes contextos e situações entre escutas, saberes e a arte sonora. Propõe articular inflexões heterogêneas que atravessam e catalisam projetos artísticos em seus enredamentos midiáticos, envolvendo intersecções e/ou tramas entre o audível e o inaudível, entre proposições de escritas, escutas e modulações do sonoro.  Partindo do pressuposto de que o sonoro pode ser articulado a partir de diferentes modos e/ou modulações de escutas, o dossiê convida a pensar sobre as seguintes questões: a escrita como proposição e a escuta como prática; modulações e escritas do intensivo vibrátil; ecologias e tecnologias do sonoro; articulações entre corpo, escrita, som; experiências de silêncio, silenciamento e contra-silenciamento; sentidos de ruído e práticas contextuais; materialidades do sonoro; modos de escuta, cuidado e clínica do sonoro; vozes do antropoceno.
Proposição para uma auto-escuta: 3 movimentos para auto-escutar-se - (2024)

Marina Mapurunga de Miranda Ferreira

Volume: 16 - Issue: 40

Resumo. A escrita pode propor uma escuta, assim como uma escuta pode gerar escritas. Apresento uma escrita que partiu de uma auto-escuta e, agora, proponho outra escuta para o/a leitor/a. Esta proposição envolve uma auto-escuta que pode ser fisiológica, em busca dos sons do próprio corpo, como também uma escuta psicológica que vagueia pelos pensamentos à deriva. Essa auto-escuta também pode ser focal e global. Por mais que busquemos focar um som específico, nosso ouvido se abre para “planos” mais abertos seja estes internos ou externos a nós. Esta prática de escuta pode ser feita individualmente ou em grupo. Em grupo, pode-se discutir e compartilhar, após a auto-escuta, a experiência de cada pessoa. O que eu escutei que o outro também escutou? O que eu escutei que o outro não escutou? Como compartilhar minha auto-escuta? Por meio de uma nova escrita, um desenho, um rascunho?
A fortuna visual das camadas trágicas do romance da Castelã de Vergy - (2024)

Flavia Galli Tatsch

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo. A tragédia pode assumir várias dimensões em uma mesma história, a depender de sua compreensão. Este artigo procura desenvolver uma reflexão sobre a fortuna visual das distintas camadas trágicas na história da Castelã de Vergy (escrita na primeira metade do século XIII), que narrava o amor de um casal de jovens e as mortes de três dos quatro personagens. A ampla circulação do romance estimulou a produção de imagens em suportes distintos. A partir da análise de uma miniatura, uma insígnia em metal, uma caixa em marfim e um afresco, este estudo abordará como os episódios representados se relacionavam tanto com o romance, quanto dialogavam com a comunidade, impactando na construção das relações no interior das sociedades pré-modernas.
A leitura trágica da Conjuração Mineira por Pedro Américo - (2024)

Maraliz de Castro Vieira Christo

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo. No presente texto, pretende-se apresentar a série idealizada por Pedro Américo sobre a Conjuração Mineira, entre 1892 e 1893, da qual apenas o quadro Tiradentes esquartejado foi concluído. A série de cinco quadros nos lembra a estrutura de uma tragédia: felicidade, erro e catástrofe, numa relação de causa e efeito. Gonzaga, feliz na expectativa do casamento, bordando o vestido nupcial de sua noiva, Tiradentes reunido com outros conjurados, errando por neles confiar em demasia, e a catástrofe da repressão ao movimento, exemplificada pelo suicídio/assassinato de Claudio Manuel da Costa e pelo esquartejamento de Tiradentes. A estrutura trágica revela como o pintor considerava a conjuração um movimento frágil, condenado, desde o início, ao fracasso.
A palavra que ginga - (2024)

Ana Lucia Beck, Emmanuel Felipe de Araújo Amaral

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo. Este artigo explora a utilização da palavra – elemento da linguagem verbal – em desfiles carnavalescos das escolas de samba do Rio de Janeiro. Se valendo pela noção de ginga, visto que essas escritas desfilam sob giros, rodopios e bailados, é realizada uma reflexão mediada por diversas críticas negativas feitas à utilização desses elementos na visualidade carnavalesca. Todavia, tais críticas tratam a dimensão verbal nessas criações como algo hierarquicamente menor do que a dimensão visual. Em função deste tipo de mirada à presença de elementos verbais nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, realizamos um levantamento de diversos exemplos dessa ocorrência que, em nosso entendimento, demonstram as potencialidades da linguagem verbal na constituição da visualidade do Carnaval, bem como no incremento dos sentidos de diferentes sambas enredo.
Arte participativa, tragédia social e dissenso político: uma batalha possível - (2024)

Artur Correia de Freitas

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo. Este artigo analisa a relação entre a tragédia social da agenda neoliberal e o dissenso político da arte participativa através de um caso concreto: a performance coletiva Batalha de Orgreave, do artista inglês Jeremy Deller. Realizada em 2001, a obra propõe, no plano da memória coletiva, a reencenação de um dos mais violentos conflitos do pós-Guerra entre as políticas neoliberais e a classe trabalhadora: o trágico ataque policial contra mineradores em greve perpetrado durante a era Margaret Thatcher, na Inglaterra, dezessete anos antes, em 1984. Para a reconstrução da batalha, Deller conta com a cooperação de cerca de mil participantes, centenas dos quais “veteranos” do conflito de origem, incluindo ex-mineradores e ex-policiais. A análise do evento é realizada a partir da teoria neo-aristotélica da “tragédia social” da socióloga Stephanie Baker, em articulação com os conceitos de “dissenso político” e “antagonismo” de Jacques Rancière, Ernesto Laclau, Chantal Mouffe e Claire Bishop. Ao final, conclui-se que a elaboração coletiva de uma tragédia social, central em obras como essa, tem na mecânica da retração autoral um de seus prováveis limites políticos.
Bastidores da tragédia “Otelo” (1949): aproximações entre as pinturas dos irmãos Bellini e o desenho de figurino de Oliveira - (2024)

Paula Alvares Ampessan

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo. Este artigo visa investigar um desenho de figurino desenvolvido para a tragédia “Otelo” para o Teatro do Estudante do Brasil no ano de 1949. O objeto, como fonte primária, é descrito e analisado com objetivo de identificar características formais que revelam escolhas artísticas de Pernambuco de Oliveira, desenhista responsável. Conforme sugere o tempo e espaço desta peça shakespeariana, a escola de pintura veneziana é indicada, particularmente em Gentile e Giovanni Bellini, alcançando os símbolos emprestados ao desenho - em uma transferência da pintura para o desenho e como a diferença de suporte se manifesta. Nesse exame comparativo, busca-se compreender como o personagem representado ganha contorno, sugerindo um diálogo entre as artes plásticas e cênicas, capturando as semelhanças e as soluções visuais deste.
Editorial Dossiê O trágico e a arte - (2024)

Angela Brandão, Cássio da Silva Fernandes

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo.
Fogo, destruição e criação: a arte de Anselm Kiefer e a filosofia de Andrea Emo - (2024)

Alexandre Ragazzi

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo. A partir de uma questão ambiental sobre o problema das queimadas no Brasil, trata-se, neste artigo, da correlação entre destruição e regeneração na natureza e na arte. Levando em conta tragédias causadas pelo fogo que, ao longo da história, arruinaram o patrimônio histórico e artístico, serão analisadas as afinidades existentes entre um artista e um filósofo. De um lado coloca-se Anselm Kiefer, com destaque para as pinturas produzidas para uma exposição no Palazzo Ducale de Veneza, local acometido por um grande incêndio em 1577; de outro, o pensamento de Andrea Emo, autor recentemente redescoberto. Como será demonstrado, a noção de que as imagens nascem de gestos iconoclastas apresenta-se aqui como parte central de um programa em que destruição e criação se fundem e se manifestam por toda parte.
Povo da lua, povo de sangue (1983) e a “tragédia Yanomami” - (2024)

Rosane Kaminski

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo. O presente artigo propõe uma análise do fotofilme Povo da lua, povo de sangue (1983), um curta-metragem dirigido por Marcelo Tassara com base nas fotografias que Claudia Andujar fez do povo yanomami. O objetivo central é problematizar o lugar social e a eficácia política do filme, considerando as suas intenções, as suas características e as suas ambiguidades. Argumenta-se que esse fotofilme carrega um “desejo de salvação” e, ao mesmo tempo, não esconde a relação entre a operação fotográfica e as violências coloniais. Com essa condição, o filme debate-se entre as suas potências estéticas e políticas, as suas responsabilidades e os seus próprios limites.
Príamo e o resgate de Heitor: um estudo sobre o trágico na pintura da cerâmica ática - (2024)

José Geraldo Costa Grillo

Volume: 16 - Issue: 39

Resumo. O objetivo deste estudo é o de argumentar que Príamo é o personagem principal nas pinturas do resgate de Heitor e que os pintores, ao se concentrarem nele, representaram a sua tragédia. Para atingir tal fim, foram selecionadas seis pinturas consideradas as mais dramáticas, as quais são analisadas a partir da narrativa visual, levando em conta a composição, os gestos e as posturas. Visto que a Ilíada de Homero serviu de inspiração aos pintores, apresenta-se como Homero concebeu esta cena, bem como o entendimento de Aristóteles sobre a tragédia, de modo a destacar o caráter dramático da tradição pictórica e suas especificidades.