Revista Tempo e Argumento

(878 Artigos indexados)

Educação e Ditadura (1964-1985): povos indígenas da (na) Amazônia, os temas sensíveis, crimes de lesa-humanidade e Direitos Humanos - (2025)

Adriana Gomes Santos, Francisca Edjane Marcelino Magalhães Scacabarossi

Volume: 17 - Issue: 44

Resumo. A ditadura, que perdurou no Brasil entre 1964 e 1985, esteve diretamente vinculada à prática de graves violações aos Direitos Humanos, ataques contra trabalhadores, organizações e população urbana, cujas consequências se perpetuam na atualidade. Porém, as violações atingiram os povos originários (indígenas e afrodescendentes) em diferentes partes do país, especialmente na Amazônia, onde os grandes projetos desenvolvimentistas assentavam-se na exploração dos recursos naturais, como nos casos da extração do minério e da produção agropecuária. Os diferentes grupos étnicos que objetivamente sofreram as remoções forçadas, as mortes por doenças, ataques, envenenamentos, dentre outras possíveis violações, ainda atravessam um processo de questionamentos sobre seus territórios. Por isso, a importância da discussão a respeito das violações aos Direitos Humanos no espaço escolar, apresentando uma contraposição ao processo hegemônico de invisibilidade dos povos originários e distorções dos processos e evidências no Ensino de História.
Escritos de presos: Abdias Nascimento e a Penitenciária do Estado em São Paulo (1943-1944) - (2025)

Fernando Salla, Marcos César Alvarez

Volume: 17 - Issue: 44

Resumo. Este artigo aborda os escritos de presos e sua importância para a compreensão das dinâmicas das relações sociais nas prisões, assim como da dimensão subjetiva dos encarcerados. Analisa especialmente a contribuição de uma obra póstuma de Abdias Nascimento para o conhecimento do funcionamento da Penitenciária do Estado em São Paulo, onde esteve preso de 1943 a 1944. Abdias Nascimento, além de narrar suas experiências e seus sentimentos como encarcerado, submetido aos rigores disciplinares e castigos, buscou dar voz a diversos presos para que contassem suas histórias de crime e suas vidas na Penitenciária. Abdias Nascimento viveu um momento de reforma da Penitenciária, empreendida pelo médico Flamínio Fávero, que buscou reverter os rigores do silêncio e os muitos castigos que eram até então impostos aos encarcerados e criar novas rotinas, ao permitir a maior participação dos presos na estruturação da vida cotidiana daquela prisão. Foram tais reformas que permitiram a emergência do Teatro do Sentenciado, sob a condução do próprio Abdias. Seu escrito constitui-se, portanto, em documento que registra as práticas cotidianas daquela prisão, os mecanismos disciplinares impostos e os sentimentos dos presos, preservando, assim, uma página da história das prisões no Brasil.
O que necessita saber um professor para ensinar história? Como os estudantes em formação inicial interpretam essa questão? - (2025)

Erinaldo Vicente Cavalcanti

Volume: 17 - Issue: 44

Resumo. Este artigo se debruça sobre a ampliação das reflexões acerca dos saberes docentes da formação inicial do professor de história. Para isso, analisa como um conjunto de 115 estudantes matriculados no curso de licenciatura da Universidade Federal do Pará (UFPA) interpretam a questão: o que é necessário para ensinar história? Como metodologia, foi aplicado um questionário adotando, na sequência, os procedimentos quantitativos e qualitativos pelos quais foram catalogados os dados, e produzidos tabelas e gráficos sobre gênero, idade, cor e período em que estavam matriculados os discentes participantes. Em seguida, foram analisados os registros das respostas produzidas, problematizando os saberes que os futuros professores compreendem como necessários à docência. Pelos dados produzidos, percebe-se uma grande diversidade de saberes perfilando as interpretações dos discentes que envolvem os conhecimentos da área de referência, das áreas vizinhas e da própria experiência.
Pode um menor delinquente ser uma vítima da guerra? Os especialistas da Justiça de Menores francesa frente aos impactos psíquicos da Segunda Guerra Mundial - (2025)

Franciele Becher

Volume: 17 - Issue: 44

Resumo. Por meio de uma análise qualitativa de dossiês da Justiça de Menores francesa, este artigo propõe um estudo de caso sobre a maneira como especialistas dos centros de observação (principalmente psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais) avaliaram adolescentes infratores com claros sinais de sofrimento psíquico decorrente dos bombardeios e da repressão racial da Shoah durante a Segunda Guerra Mundial e a ocupação nazista da França, que passaram por essas instituições entre 1945 e 1953. A análise dos dossiês de Angèle e Olivier, vítimas diretas dos ataques aéreos, assim como dos de Manès e Yann, dois adolescentes judeus fortemente afetados pelo genocídio, revelam uma profunda incompreensão dos especialistas em relação ao sofrimento desses jovens. Em alguns casos, o contexto da guerra foi completamente ignorado, ou então minimizado em favor de interpretações que reforçaram estereótipos ultrapassados sobre delinquência juvenil, preconceitos sociais ou arquétipos de gênero. Muitas vezes, os especialistas se declararam mesmo incompetentes para lidar com esses adolescentes, o que resultou na invisibilização de suas experiências juvenis da guerra, manifestadas na angústia registrada nas fontes analisadas. Conclui-se que, embora os centros de observação tenham sido idealizados como instituições modernas e científicas, voltadas a auxiliar o juiz a romper com o ciclo repressivo da Justiça de Menores francesa, que ingressou em uma nova era a partir de 1945, eles não estavam preparados para acolher esses adolescentes marcados pela guerra e pela repressão. Essas instituições acabaram, assim, por reforçar antigas nosografias psiquiátricas e os estereótipos da delinquência juvenil do período entreguerras.
Utopias de ontem e memórias do hoje: aproximações interdisciplinares entre arte, museus, patrimônios e tempo presente - (2025)

Jonas João do Nascimento

Volume: 17 - Issue: 44

Resumo. Resenha da obra: MYRIAN, S.S (Org.). Entre utopias e memórias: arte, museus e patrimônios. Rio de Janeiro: Mórula. 2022.
“Na época de denunciar”: a conjuntura política de 1930 e os escritos dos presos comuns da Casa de Detenção do Recife - (2025)

Aurélio de Moura Britto

Volume: 17 - Issue: 44

Resumo. Este artigo investiga diversos escritos de presos comuns redigidos na Casa de Detenção do Recife no contexto da Revolução de 1930. Pretendemos escrutinar as correlações positivas entre o contexto político externo à prisão e a emergência desses manuscritos, bem como, examinar suas reivindicações de modo a revelar um sofisticado processo de apropriação da retórica política propalada pela Aliança Liberal no contexto de sua mobilização. Divergindo das abordagens usuais, ao passo que não centraliza sua atenção na ação dos presos políticos, investigamos as conexões e porosidades entre as dinâmicas internas da prisão e a conjuntura de acirramento político externa ressaltando uma dimensão política e associativa na prática peticionária dos presos comuns, sujeitos olvidados pela abordagens tradicionais da história das prisões na Era Vargas. Para tanto, mobilizamos diversificada tipologia documental (ofícios, requerimentos, habeas corpus, cartas, petições, jornais, pareceres do Conselho Penitenciário, relatórios e “partes diárias”) com o fito de ultrapassar o uso reiterado e predominante das memórias de presos políticos como fonte exclusiva para investigar o cotidiano das prisões nesta conjuntura.
“Onde fui reduzido à condição de alimária”: a Penitenciária do Ahu narrada por dentro na escrita de Abel Hamvultando (Curitiba, 1909-1917) - (2025)

Clóvis Gruner

Volume: 17 - Issue: 44

Resumo. Este artigo analisa um conjunto de textos escritos pelo jornalista e poeta Abel Hamvultando, condenado a 29 anos de prisão pelo assassinato, em agosto de 1900, de João Bleggi, em Curitiba, capital do estado do Paraná: uma série de nove artigos, publicados anonimamente no jornal O Fluminense, de Niterói; uma longa missiva endereçada aos ministros do Supremo Tribunal Federal; e uma carta assinada por sua mãe, publicada no jornal curitibano Diário da Tarde. A intenção é apreender as variações e estratégias utilizadas por Hamvultando em um ambiente, o prisional, onde as condições para a escrita são restritas; a circulação de textos, bastante limitada; e a liberdade, constantemente vigiada. Apesar dos rigores e dificuldades, os textos produzidos por Abel Hamvultando revelam, além de sua própria experiência, perspectivas do cotidiano prisional que escapam àquelas presentes em discursos e fontes de caráter mais oficial. Trata-se, no caso de Curitiba, de uma fonte ímpar, dada a inexistência, para o período, de documentação similar. Como em outra tantas instituições, a memória e o testemunho de prisioneiros, e sua sobrevivência, são raros. Nesse sentido, a leitura desse conjunto de textos permite vislumbrar outras possibilidades da história das prisões, do aprisionamento e dos prisioneiros no Paraná.
A historiadora entre os vivos e os mortos; entre o Norte e o Sul - (2024)

Malika Rahal

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. A Batalha de Argel, mais corretamente chamada pelos historiadores de "a grande repressão de Argel" (Gilbert Meynier), marcou um ponto importante, a ponto de ser o símbolo, para uma parte do mundo, da guerra de independência da Argélia. Juntamente com meu colega Fabrice Riceputi, realizo um trabalho de história colaborativa sobre as desaparecimentos forçados durante a Batalha de Argel. No site do projeto, criamos uma página para cada pessoa desaparecida identificada e lançamos um apelo às famílias para que confirmem o destino de cada uma. Desde então, fomos contatados por dezenas de famílias: às vezes, elas enviam a foto da pessoa, fornecem depoimentos escritos ou nos enviam documentos que mantiveram. Em nossas pesquisas como historiadores do tempo presente, desempenhamos papéis que nem sempre nos são próprios. Para dizer de outra forma, tocamos nos limites de nossa disciplina e circulamos entre os vivos e os mortos. Esse é o tema deste artigo.
Editorial - (2024)

Emerson Cesar de Campos, Mariana Rangel Joffily, Reinaldo Lindolfo Lohn, João Júlio Gomes dos Santos Júnior

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Editorial: Volume 16, Número 43, Ano 2024
Escritas aprisionadas: fontes (im)possíveis para a História do Tempo Presente - (2024)

Viviane Trindade Borges

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Este artigo trata de produções escritas por prisioneiros comuns no século XX. A primeira parte do texto problematiza como estas fontes podem servir para pensar as diferentes camadas que compõem as práticas institucionais, possibilitando a ampliação do olhar a respeito da história das prisões. A análise perpassa as disputas pela memória que se entrelaçam à dicotomia binária “presos políticos” e “presos comuns”. Por fim, o artigo explora como a pesquisa, a partir dessas fontes, pode ter seus resultados transmutados em produtos que visam alcançar um público mais amplo, focando no processo de criação de podcasts baseados em vidas atravessadas pela experiência institucional. A proposta, toma história das prisões como um tema movediço e incontornável para a história do tempo presente.
Geografias imaginativas no tempo presente: do Terceiro Mundo ao Sul Global - (2024)

Reinaldo Lindolfo Lohn

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Este artigo apresenta uma intepretação de caráter histórico acerca das percepções políticas associadas à noção de Sul Global, na qual a sociedade brasileira vem sendo situada no tempo presente. Para tanto, toma “Sul Global” como uma geografia imaginativa em disputa, a qual tanto medeia encontros, confrontos e conexões internacionais quanto influencia os contornos das relações políticas em países como o Brasil. Entre uma representação política marcada pelo chamado terceiro mundismo e a nova configuração transnacional, hegemonizada pelo neoliberalismo, a partir da década de 1970, os conflitos sociais e os projetos políticos na sociedade brasileira foram redimensionados, em meio a um contraditório processo de democratização e exercício limitado dos direitos humanos.
História do Tempo Presente e éticas: inquietações acerca das fontes - (2024)

Silvia Maria Fávero Arend

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. A partir das inquietações suscitadas pelo trabalho de pesquisa e de editoração científica no campo da História do Tempo Presente, este artigo objetiva debater as difíceis delimitações éticas que dizem respeito ao acesso, uso e exposição de fontes históricas. O texto parte de um episódio de conflito entre diferentes dimensões éticas suscitado por um questionamento judicial ao exercício da prática historiográfica. A situação mostrou-se complexa em diferentes sentidos, envolvendo questões no âmbito da legislação construída no Brasil desde a década de 1990 na esfera da ética na pesquisa. Por outro lado, o texto aponta para os desdobramentos do chamado giro ético-político e as possibilidades de construir caminhos, tanto metodológicos quanto epistêmicos, para dar conta de questões tão abrangentes como a autonomia da pesquisa científica e a defesa dos direitos humanos, tendo em vista a escrita de uma História do tempo presente tão eficaz em seus resultados quanto comprometida com princípios éticos.
História pública e pesquisa participativa no tempo presente: corpo e oralidade em um laboratório engajado - (2024)

Juniele Rabêlo de Almeida

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Este artigo propõe reflexões sobre a interface entre história pública, pesquisa participativa, história oral e corporeidade a partir das orientações teórico-metodológicas do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense (LABHOI/UFF, criado em 1982). Busca-se observar os acervos de história oral construídos a partir de práticas participativas de pesquisa, que incluem formas corporais de narrativa públicas – percepção dos passados presentes nos corpos em trabalhos socialmente engajados. Discutem-se os processos de pesquisa que não minimizam o papel do corpo na construção do sujeito histórico.
Narração, documentos e testemunhos de adoções forçadas no Chile: reflexões a partir de uma trajetória de pesquisa - (2024)

Karen Alfaro

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. O estudo do tempo presente representa um grande desafio na relação entre história e justiça, especialmente naqueles processos que ainda estão em aberto e nos quais não há registros oficiais ou estes não constam nos relatórios da verdade. Este artigo busca refletir a partir de uma trajetória de pesquisa sobre adoções forçadas no Chile, no que diz respeito aos materiais, às tensões e à relação com a justiça ao longo desses anos. Nossas principais questões gerais foram: quais são os principais problemas de acesso aos arquivos do passado-presente? Hoje, qual é o papel das fontes orais e dos arquivos de memória? E quais possibilidades e questões se associam ao uso das redes sociais como repositórios de testemunhos e fontes não tradicionais? Junto com essas, nos perguntamos especificamente sobre: ​​quais são as contribuições da disciplina história com a compreensão das adoções forçadas no Chile? E quais são os desafios da pesquisa nesse campo de estudo? Com ​​este artigo, apresentado no V Seminário Internacional de História do Tempo Presente, buscamos abordar essas questões a partir de uma trajetória de pesquisa. Nesta comunicação apresentada no V Seminário Internacional de História do Tempo Presente, procuramos responder a estas questões a partir de uma trajetória de investigação. 
Nuestra Orilla podcast: Desafiando la historia como proyecto de reparación en Colombia - (2024)

Catalina Muñoz-Rojas

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Este artículo desarrolla la propuesta epistemológica de Nuestra Orilla podcast, una serie sonora de ocho episodios resultado de un proceso de investigación participativa, realizado en una colaboración entre historiadores, comunicadores y dos líderes sociales afrocolombianos de la región del Bajo Atrato en el Pacífico colombiano. La serie, albergada también en una página web donde la historia se expande desde una curaduría de fuentes primarias y secundarias, cuenta la historia de la región colombiana del Bajo Atrato desde las perspectivas de sus habitantes y a través de la experiencia de vida de la narradora: Ana Luisa Ramírez. Este proyecto tuvo como objetivo producir una historia (entendida como método crítico de indagación y como género narrativo a la vez) de esta región del Pacífico colombiano que desafía los lugares, temporalidades y metodologías usadas para contar las historias de violencia en Colombia, con la esperanza de producir contra-historias que ayuden a reparar la manera como nos relacionamos con los demás y con el entorno.
Presente eterno e história do tempo presente: encontros, controvérsias e possibilidades - (2024)

Rogério Rosa Rodrigues

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Em 9 de fevereiro de 1914, o ideal de uma sociedade igualitária, representado pela Santa Irmandade dos monges José e João Maria, foi interrompido pelo bombardeio da Cidade Santa de Taquaruçu, conduzido por uma aliança de coronéis, políticos e militares de Santa Catarina, região sul do Brasil. Quase um século depois, esse projeto de sociedade ressurgiu através do grupo cultural Renascença Cabocla, fundado por descendentes de devotos dos monges. Este artigo investiga a continuidade dos valores religiosos e sociais da Irmandade ao longo do tempo, destacando o papel de Taquaruçu na memória do conflito chamado Guerra do Contestado e como o grupo Renascença Cabocla mantém vivos esses ideais no presente. Com base em discussões teóricas sobre a história do tempo presente e influenciado pela concepção de temporalidade de Gilles Deleuze, o estudo propõe uma reflexão sobre a coexistência entre o passado e o presente. Identifica-se, assim, no ideal da Santa Irmandade vivido brevemente em Taquaruçu e no grupo Renascença um "tempo alargado e sagrado", que transcende a cronologia linear. Essa abordagem sugere uma revisão da temporalidade histórica que orienta a história do tempo presente, introduzindo a noção de um "tempo eterno" — um presente contínuo e expansivo, como elaborado por Deleuze ao discutir a estrutura do acontecimento entre os tempos Cronos e Aion. Dessa forma, propõe uma ampliação da concepção de tempo histórico que orienta, via de regra, a noção temporal que serve de base epistemológica a história do tempo presente, tal como tem sido debatida e praticada na atualidade.
Responsabilidade da história, responsabilidade do historiador: o “momento CNV” como turn point da historiografia da história do tempo presente e seus novos desafios - (2024)

Angélica Müller

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Este ensaio parte do pressuposto que, no contexto brasileiro, o “momento CNV” permitiu vir à tona de maneira mais explícita o giro temporal na história, que tem levado os historiadores do tempo presente a pensarem respostas epistemológicas para definir o campo e as formas de nele atuar. A proposta parte da ideia de responsabilidade pelo mundo, de Hannah Arendt, aqui entendida como uma responsabilidade da história. Na segunda e maior parte, o texto percorre a ideia de responsabilidade do historiador, a partir da tríade proposta por Bedárida (crítica, ética e cívica) apontando e refletindo sobre algumas questões de método e teoria, como o trabalho multidisciplinar e as reflexões sobre as temporalidades. Quanto aos eixos ético e também cívico, que passo a chamar de social, a análise central perpassa pela discussão sobre a verdade, se desdobrando em reflexões sobre a verdade factual e a verdade do método como maneira de se diferenciar da opinião, entendendo esses e outros desafios do historiador que se propõe a refletir e escrever sobre seu tempo.
“Dar voz” ou “dar ouvidos” aos subalternizados? O “Sul global” em perspectiva na obra de Silvia Rivera Cusicanqui - (2024)

Giovani José da Silva

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Nos últimos anos, no Brasil, o termo “decolonial” ganhou força e respaldo entre intelectuais das Ciências Sociais e Humanas, sobretudo por conta dos trabalhos do grupo Modernidade/Colonialidade (M/C), surgido nos anos 1990, formado por latino-americanos e americanistas. Antes, porém, do aparecimento do M/C, uma socióloga e historiadora boliviana de origem Aymará, Silvia Rivera Cusicanqui, já apresentava reflexões e ações que, ao invés de decoloniais prefere chamar de descolonizantes/descolonizadoras. Apesar de mais de 40 anos de atuação intelectual e política, sobretudo em movimentos libertários andinos, Rivera Cusicanqui ainda é pouco conhecida no ambiente acadêmico brasileiro. Por meio da leitura e da análise de suas obras, bem como de seus intérpretes, é possível desvendar a originalidade das propostas realizadas por ela, sempre de maneira coletiva e colaborativa. O objetivo do artigo é apresentar, ainda que parcialmente, seu pensamento-sentimento-movimento, mostrando a importância de formulações teórico-práticas para as ações-reflexões a respeito da história do tempo presente na América Latina, em particular na Bolívia, seu país de origem. A partir dos trabalhos desenvolvidos inicialmente no Taller de Historia Oral Andina (THOA), do qual a intelectual-ativista foi uma das cofundadoras, é possível vislumbrar formas outras de se fazer-pensar os registros das oralidades, bem como seus usos e possíveis abusos. Além disso, o mundo ch’ixi preconizado por ela, notadamente em suas últimas obras, permite combater a “ventriloquia decolonial” (que pretende falar pelos subalternizados), avançando de discursos para práticas que, de fato, incidam sobre a descolonização de saberes e fazeres.
“O Famatina não deve ser tocado.” Processos de luta e resistência em torno da exploração do Cerro Famatina, La Rioja, Argentina - (2024)

Mariana Mastrángelo

Volume: 16 - Issue: 43

Resumo. Nesta pesquisa, propomos analisar o processo de organização, resistência e luta que vem se desenvolvendo nas últimas décadas em Famatina, província de La Rioja, em resposta à instalação da megamineração metalífera. Fazemos isso a partir de uma perspectiva do Sul Global, o que implica reconhecer, de um ponto de vista crítico, como novas experiências sociais surgem diante do avanço do que David Harvey denominou, nessa etapa do capitalismo, acumulação por desapropriação (Harvey, 2005). Perguntamo-nos por que um grupo de vizinhos dessa região se dispõe a lutar por seus recursos naturais e, sobretudo, pelos bens comuns que compartilham. O principal motivo que une essas pessoas é a defesa do território, da natureza e, sobretudo, o sentimento de pertencimento ao Cerro. Dali surgiram os slogans que dominaram a luta: “O Famatina não deve ser tocado” e “A água vale mais que o ouro”, que persistem até hoje como gritos de resistência. Este artigo faz parte do projeto de pesquisa Ficyt-Undec 2022, intitulado “Representações sociais do Cerro Famatina e conflitos de proximidade. Resistências e (re)existências territoriais em Chilecito e Famatina hoje”, onde um grupo de pesquisadores e estudantes da Universidad Nacional de Chilecito (Universidade Nacional de Chilecito) realiza entrevistas semiestruturadas e histórias de vida para aprofundar as memórias de luta e resistência aos projetos extrativistas em Famatina, La Rioja.
A história política do golpe de 1964 e do regime militar: balanços e perspectivas - (2024)

Marcos Napolitano

Volume: 16 - Issue: 42

Resumo. Este artigo propõe um balanço historiográfico sobre o campo da história política do golpe de 1964 e do regime militar, ao mesmo tempo em que sugere novas perspectivas de análise centradas não apenas no processo golpista em si, mas também em dois outros temas: o funcionamento do modelo político do regime militar, com destaque para a articulação entre repressão legal e terrorismo de Estado e para o lugar dos Atos Institucionais como instrumentos políticos, para além de uma mera “fachada jurídica”, e o histórico acidentado da “Abertura política”, como resultado da dialética entre o regime autoritário e campo das resistências democráticas. Por fim, o texto também destaca a importância da crítica da memória social do período para o campo da história política, visando à revisão da periodização consagrada pela vertente liberal da oposição que reduz o caráter ditatorial propriamente dito do regime ao período dos “anos de chumbo”.
A memória antes da memória: museus e guerra na Ucrânia - (2024)

Maria Leticia Mazzucchi Ferreira

Volume: 16 - Issue: 42

Resumo. Neste artigo buscou-se analisar os sentidos que assumem memória, patrimônio e usos do passado na Ucrânia contemporânea. Para tanto, buscou-se analisar como opera a relação memória-patrimônio-política por meio de alguns exemplos de patrimonialização e de ações museológicas em três museus na cidade de Kiev: a primeira delas no Maidan Museum com objetos coletados em zonas de guerra; a segunda no National Museum of History of Ukraine in the Second World War denominada Ukraine – Crucifixion; e a terceira no Museu de Fragmentos de Guerra. Sob diferentes formas expográficas tais ações ocorrem simultaneamente ao estado de guerra no qual mergulhou a Ucrânia desde o dia 24 de fevereiro de 2022 com a invasão russa ao país. O objetivo deste artigo foi o de analisar como se articulam as noções de museu e memória quando ainda está em curso o presente, o que nos sugere uma nova relação com o tempo. Tendo em vista o contexto bélico que se estende no país, as reflexões que aqui se apresentam são resultantes de uma observação dos materiais dispostos nos sites das instituições museológicas citadas, bem como de matérias jornalísticas divulgadas na imprensa internacional.
Apresentação do Dossiê “História do tempo presente, patrimônio e memória” - (2024)

Janice Gonçalves, Luís Alegría Licuime

Volume: 16 - Issue: 42

Resumo. Apresentação
Arquivos: relações de poder e sensibilidades - (2024)

Philippe Artières, Viviane Borges, Fernando Salla

Volume: 16 - Issue: 42

Resumo. Philippe Artières é historiador e pesquisador do CNRS no Institut Interdisciplinaire d’Anthropologie du Contemporain (IIAC) da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS). Defendeu sua tese de doutorado em 1996 sob a orientação de Michelle Perrot e desde então tem se dedicado ao estudo dos escritos ordinários de pessoas comuns dos séculos XIX e XX. Presidente do Centro Michel Foucault desde 1995, é um dos maiores especialistas no pensamento foucaultiano. Os “arquivos” tornaram-se seu objeto de estudo, e especialmente as práticas arquivísticas comuns dos anônimos, que ele chamou de “arquivos menores”. Dedica-se à história contemporânea da escrita, investigando as diferentes formas de escrever a história, em colaboração com outros colegas. Seus estudos problematizam a relação entre narrativa histórica e literatura, a extensão das fontes à escrita autobiográfica e o trabalho de alguns pesquisadores que experimentam outras formas de escrever a história: narrativa, experiências de escrita, publicação de arquivos, exposições e documentários radiofônicos.
Brazilian Fascism: The Extreme Right and the Forever-Present Past - (2024)

Gabriela Santi Santi Pacheco

Volume: 16 - Issue: 42

Resumo. Book review: GONÇALVES, Leandro Pereira; CALDEIRA NETO, Odilon. Fascism in Brazil: From Integralism to Bolsonarism. London, and New York: Routledge, 2022.
Do silenciamento ao artivismo: a presença indígena nos museus de história - (2024)

Brenda Coelho Fonseca, Márcia Regina Romeiro Chuva

Volume: 16 - Issue: 42

Resumo. Este artigo propõe uma reflexão sobre a presença indígena nos museus de história no tempo presente, analisando especialmente as exposições sobre indígenas no Brasil, inauguradas e inseridas no circuito de longa duração de dois museus na cidade do Rio de Janeiro: o Museu Histórico Nacional e o Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro, em 2023 e 2022, respectivamente. As duas experiências contaram com a curadoria compartilhada do artista indígena Denilson Baniwa. O foco nos museus de história tomou como referência a concepção de Ulpiano Bezerra de Meneses, para quem os objetos de museu devem ser tomados como documentos históricos, e o museu compreendido como parte constituinte da vida social. O artigo contextualiza os dois museus para, em seguida, analisar aspectos das referidas exposições, interrogando sobre uma possível virada decolonial nessas experiências, que se confrontam com a história dessas instituições, bem como com a narrativa hegemônica do restante das suas exposições de longa duração.